Ninguém ama ninguém ... por mais de dois anos

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País


Sinopse

No Rio de Janeiro dos anos de 1960, entrelaça-se a vida amorosa de cinco casais, todos frequentadores de um mesmo restaurante, onde trabalha o garçom Juventino.


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Crítica Cineweb

17/11/2015

À primeira vista, mais do que qualquer ator/atriz global do elenco, o principal chamariz do longa de estreia de Clovis Mello é justamente seu provocativo título, Ninguém Ama Ninguém... Por Mais de Dois Anos, com o qual o próprio realizador não concorda completamente. Não só o nome é retirado de uma frase recorrente em A Vida Como Ela É, de Nelson Rodrigues, como também as histórias retratadas são inspiradas em alguns dos contos da série de crônicas publicadas no jornal Última Hora por mais de 10 anos. Das 200 histórias lidas pelo diretor, ele pré-selecionou dez, até restarem as cinco escolhidas: Coroa de Orquídeas, Rainha de Sabá, Despeito, Infidelidade e Vendida.
 
A história de uma respeitável mãe de família (Gabriela Duarte como Elvira) que desperta o interesse no amigo (Michel Melamed como Eusébio) do esposo (Pedro Brício como Orozimbo) acontece concomitantemente ao noivado de uma moça rica e controladora (Julianne Trevisol como Terezinha) com um encostado e subserviente namorado (Marcelo Faria como Asdrúbal), enquanto uma mulher (Branca Messina como Marlene) deseja trair seu marido (Pedro Osório como Rafael) e uma jovem (Julia Lund) se apaixona por um malandro da praia (Ricardo Martins). Além da temática dos relacionamentos, o que une a trajetória desses personagens é a história de Juventino (Ernani Moraes), garçom do restaurante frequentado por todos eles, em pleno Rio de Janeiro do início dos anos 1960, ao som de muito choro e samba.
 
Há certo desequilíbrio na abordagem dessas tramas, com a da Gabriela Duarte e a do Marcelo Faria tendo mais desenvolvimento do que a de Julia Lund, que, às vezes, parece uma pausa dentro do próprio filme. No entanto, tendo já trabalhado como editor na TV, Mello consegue costurar as histórias com certa coesão, junto com o roteiro de Marina Meira, Paula Santos e Rodrigo de Vasconcellos e a montagem de João Branco, sem torná-la cansativa, especialmente por dosar comédia e drama na medida.
 
Com uma carreira consolidada na publicidade, o cineasta iniciante não consegue, porém, exprimir seu discurso em linguagem cinematográfica e imprimir uma marca própria. O cenário de estúdio, a fotografia muitas vezes lavada de Marcelo Brasil e a sua direção quadradinha muitas vezes se assemelha a uma boa minissérie da TV Globo, assim como A Vida Como Ela É (1996), adaptada por Euclydes Marinho e dirigida por Daniel Filho. Mesmo o uso da câmera em steadycam e movimentos rápidos verticais e horizontais – tilt e chicotes –, que constitui uma unidade visual do longa, não é suficiente para aprofundar estética e narrativamente a riqueza do material original.
Sua antologia sobre o casamento tem o charme do texto rodrigueano, mas sem conseguir o mesmo alcance do olhar cirurgicamente sarcástico e debochadamente crítico do autor, que, no estudo da vida íntima, revelava a hipocrisia da moral ilibada da sociedade da época, ainda presente até hoje. Contudo, ao usar o racismo e o machismo do período como objetos de escárnio, muitos enxergam um olhar preconceituoso nos trabalhos de Nelson Rodrigues, tornando-o controverso de uma maneira diferente do que era há cinquenta anos: se o sexo era o problema quando de sua publicação, uma provável misoginia, por serem as mulheres as “traidoras”, ou expressão de uma liberação sexual feminina é o centro das discussões atuais.
 
Nelson Rodrigues Filho, que é produtor do filme – sua filha e neta do escritor, Cristiane Rodrigues, está no elenco – exaltou, durante uma sessão da Mostra em São Paulo, a existência da adaptação em tempos de “politicamente correto”. E o fato desta ser apenas a terceira produção cinematográfica baseada na obra do autor em 15 anos pode ser um sintoma tanto de que seu texto ficara, de certa forma, datado, ou que falta ousadia aos realizadores. Entretanto, por mais que seja ligeiramente agradável, Ninguém Ama Ninguém... não é a melhor forma de tirar conclusões sobre Nelson Rodrigues.

Nayara Reynaud


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