Grace de Mônaco

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Sinopse

No momento em que se preparava para filmar "Marnie - Confissões de uma ladra", Alfred Hitchcock tenta convencer Grace Kelly, então já soberana de Mônaco, a voltar ao cinema. O episódio foi um dos muitos que tornaram difícil a vida da ex-atriz, aprisionada por conveniências familiares e políticas que tornaram infeliz sua curta vida, apesar da fama e da riqueza.


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Crítica Cineweb

27/10/2015

Se nunca houve uma mulher como Grace Kelly, tanto por sua vida extraordinária, vitoriosa como atriz de Hollywood e princesa-rainha de Mônaco, fazer sua cinebiografia já seria um desafio, para qualquer diretor, ou qualquer atriz – aliás, quem remotamente lembra sua beleza e carisma incomuns, sua aura ao mesmo tempo cálida e distante? E, tão difícil quanto tudo isso, como reproduzir ou recriar a época que produziu esse mito, que precedeu o de Lady Di e foi ainda mais complexo?
 
O tamanho desta façanha não demoveu o diretor francês Olivier Dahan de se arriscar. E assim como havia feito em outra cinebiografia de um mito feminino – Piaf – Um Hino ao Amor -, ele incorre em mais artificialismo ainda em Grace de Mônaco, que tem Nicole Kidman no papel da loura fria preferida (e não sem razão) de Alfred Hitchcock, sua estrela em Janela Indiscreta, Disque M para Matar e Ladrão de Casaca.
 
Justamente a participação de Hitchcock (interpretado pelo inglês Roger Ashton-Griffits) é uma das licenças dramáticas com personagens reais a que se permite o enredo. Encena-se uma visita em carne e osso do diretor inglês a Mônaco, para não só matar a saudade da agora soberana Grace, como para convidá-la para voltar ao cinema, protagonizando Marnie – Confissões de uma Ladra. Que, como todo mundo sabe, foi um papel que Grace aceitou, sonhou fazer, mas acabou desistindo, o que deu a chance a Tippi Hedren.
 
Outra dessas licenças ficcionais envolve o protagonista da grande crise política envolvendo Mônaco, que esteve por trás, entre outras coisas, da desistência de Grace de voltar ao cinema. Ou seja, o bloqueio físico de Mônaco por Charles De Gaulle, que, aparentemente furioso com o fracasso na guerra da Argélia, estava naquele momento decidido a vingar-se no principado, ameaçando-o inclusive de invasão e bombardeio, se o príncipe Rainier (Tim Roth) não aceitasse o pagamento de impostos de seus cidadãos ao Tesouro francês. Afinal, Mônaco é um protetorado francês que, naquele momento, se beneficiava ao atrair várias empresas francesas isentando-as de impostos, o que incomodava os ímpetos coloniais de De Gaulle.
 
Dahan coloca De Gaulle vindo pessoalmente ao principado, no auge da plena crise política, como convidado a um baile da Cruz Vermelha que foi, na verdade, uma muito bem-orquestrada operação de relações públicas, liderada pela princesa Grace, e que terminou forçando De Gaulle a baixar o tom. Na verdade, o presidente francês não veio ao baile. Tanto uma quanto a outra invenção do roteiro, assinado por Arash Amel, apenas serviram a uma necessidade do filme.
 
Grace de Mônaco certamente não é sobre política, contexto que é apenas um pano de fundo, embora o momento tenha sido escolhido a dedo para retratar sua protagonista. Nesta época, ela vivia uma grande crise pessoal, em sua vida, sua identidade, seu casamento, cogitando voltar ao cinema – ao que seu marido, num primeiro momento, não se opôs -, o divórcio (que seria impraticável, já que ela perderia o direito de voltar a Mônaco e de ver os filhos). Certamente, é por conta deste cenário que foge ao conto de fadas que os filhos de Grace, Caroline, Albert e Stéphanie, não quiseram vir a Cannes em 2014, quando o filme foi atração de abertura, apesar da proximidade geográfica, do convite e da acolhida glamourosa que teriam.
 
Todo o esforço despendido, no entanto, não salva o filme de um grande fiasco. Nunca se acredita realmente na química deste casal, que era estranho na vida real também, aliás. O desenvolvimento da história nunca sai do artificial, prejudicando o envolvimento dramático no grande drama pessoal de sua protagonista. Há um erro de tom em tudo e todos, o que provocou uma enxurrada de críticas ao filme desde sua première em Cannes e até certo ponto explica o atraso para seu lançamento no Brasil.

Neusa Barbosa


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