O preço da fama

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Sinopse

Eddy acaba de sair da cadeia e é acolhido pelo velho amigo Osman, que vive uma vida modestíssima, tentando a duras penas criar a filha. Não muito longe dali, morre o ator e diretor Charles Chaplin. Eddy tem a ideia que considera genial: roubar o caixão de Chaplin, pedindo um resgate milionário, para dar um jeito na vida dele e de Osman.


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Crítica Cineweb

29/09/2015

Não é de conhecimento geral, mas a biografia de Charles Chaplin reservou uma piada, de mau gosto, diga-se de passagem, até para o momento posterior à sua morte. Três meses após seu falecimento em Vevey, refúgio dele na Suíça durante seus últimos anos de vida, seu cadáver foi roubado e os bandidos exigiram o pagamento de um resgate para que a família recuperasse o corpo do ícone do cinema.
 
A partir da ideia funesta de um polonês e um búlgaro, que alegaram dificuldades financeiras para justificar o ato, o cineasta francês Xavier Beauvois cria uma história única. O Preço da Fama (2014) é sua própria fábula social sobre dois desajustados, aqui um imigrante argelino e outro belga, que veem a salvação no Vagabundo, o herói do homem comum que poderá ajudá-los até depois de morto. Um paralelo entre ladrões e vítima tão claro que sua explicitação em uma fala próxima ao final do filme se torna redundante.
 
Trata-se da primeira incursão do diretor na comédia. Sempre à frente de projetos dominados pelo drama, como o policial O Pequeno Tenente (2005) e o pungente Homens e Deuses (2010), longa baseado em um caso real que levou o Grande Prêmio do Júri em Cannes e sagrou-se vencedor no César, ele se arrisca no humor negro e patético, sem deixar de lado a carga dramática de seus personagens. Contudo, sua tragicomédia, exibida no Festival de Veneza do ano passado, mostra-se um tanto hesitante e não obtém um bom equilíbrio em sua mistura.
 
O início da trama se detém a apresentar seus dois protagonistas e a amizade entre eles. Osman Bricha (Roschdy Zem) busca Eddy Ricaart (Benoît Poelvoorde) na saída da prisão e, por causa de uma dívida de gratidão para com seu amigo belga, enquanto ainda eram imigrantes na França, o argelino lhe oferece abrigo em um trailer nos fundos de seu casebre. Lá, o funcionário da prefeitura da cidade vive com poucos recursos com sua filha Samira (a estreante Séli Gmach), enquanto sua mulher, Noor (a atriz e diretora libanesa Nadine Labaki) está no hospital com um grave desgaste ósseo no quadril. Sem condições de pagar o tratamento da esposa, ele acaba tentado a participar do “plano genial” que seu companheiro bolou, ao saber do enterro do grande Carlitos na região.
 
A produção teve o apoio da família Chaplin, com direito a participações especiais da neta Dolores, como uma das filhas de Charles, e do filho Eugène, na pele do administrador circense. Como é possível notar, as homenagens ao nobre Vagabundo se estendem a uma série de citações, desde as figuras pobres e burlescas no auxílio de uma criança à presença do ambiente circense, único cenário em que a fotografia outonal de Caroline Champetier – de Homens e Deuses e Holy Motors (2012) – ganha cores. Só que, no último caso, a subtrama parece inserida forçadamente na narrativa por conta da referência; e não é algo isolado, já que há outras falhas nesta reverência.
 
A trilha sonora do veterano Michel Legrand remixa músicas de clássicos do ator e diretor inglês, só que em um tom de gravidade que se mostra contrastante em várias cenas. Até o tributo ao cinema mudo, que se mostrou magnífico em uma cena específica, derrapa quando Beauvois interrompe o momento e retorna com o som dos diálogos ainda no mesmo plano. Mais que isso, desequilibra no ritmo de sua comédia, como se não bebesse de fato na mesma fonte que seu homenageado.

Exemplo negativo mais claro disso é a retirada do caixão, em que a abordagem realista do cineasta esvazia a força dramática e o vigor cômico-patético da realidade retratada por causa da extensão prolongada da sequência. Em contrapartida, os momentos de riso mais sincero vêm das conversas entre Osman e sua esposa, das ligações pedindo resgate – que abrem espaço para a participação especial de Peter Coyote, como mordomo fiel à família Chaplin – e da cena pós-crédito.
 
Há que se destacar que o drama e a amizade dos personagens são suficientemente tocantes, com a ótima troca entre o palhaço ladrão de Poelvoorde – Coco Antes de Chanel (2009) – e o retraído trabalhador de Zem – Dias de Glória (2006). Se como seus protagonistas, O Preço da Fama tem intenções sinceras, apesar de suas falhas, pode-se dizer que acaba se atrapalhando de maneira graciosa e, mesmo sem intensidade, consegue marcar pelo inusitado enredo que traz à tona e sua relação intrínseca com o inesquecível Carlitos.

Nayara Reynaud


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