O Invasor (2)

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Crítica Cineweb

17/12/2002

Assim como o povo palestino, os excluídos sociais brasileiros assistem, de suas casas amontoadas na periferia, ao crescimento da miséria e da violência. Em São Paulo, onde cerca de 14 pessoas são assassinadas diariamente contra os 2,2 de Israel (desde o início da atual Intifada), a situação social estilhaça qualquer pensamento altruísta e encaminha parte da sociedade a seguir a premissa bíblica: "Olho por olho, dente por dente". No entranhado O Invasor, de Beto Brant, há uma alusão a essa "ética da sobrevivência" que fica evidente no diálogo entre Ivan e Gilberto, sobre os trabalhadores da construtora da qual são donos: "Eles querem seu carro, sua mulher".

De maneira singular, a fita lança um olhar irônico sobre esse estranhamento das classes e apóia-se num personagem bem curioso: um matador que lembra ao espectador, nos primeiros momentos da projeção, a figura do bandoleiro Robin Hood. A relativa empatia se dá pelo fato de o bandido infernizar a vida de gente pior do que ele. Com gírias típicas da periferia, o personagem põe em xeque a questão moral, já que aqui não há mocinhos nem bandidos, todos são impulsionados por seus interesses e sofrem as conseqüências de suas escolhas.

Aparentemente despojado, com uma fotografia estourada e imagens sujas, O Invasor faz uso de artifícios bem elaborados como a história dos três porquinhos, que serve de metáfora para construir a posição dos personagens na trama. Ainda usando os simpáticos suínos, o filme planta a idéia da seleção natural, onde o melhor preparado, aqui na arte da falcatrua, se sobrepuja aos demais.

A construção do personagem interpretado por Paulo Miklos merece ser destacada por incorporar a malandragem dos "manos" da periferia e criar um Anísio verídico. No entanto, quem se mostra peça fundamental é o ator Marco Ricca, que transforma, aos poucos, seu personagem em um homem transtornado pelas circunstâncias. A cidade também tem papel crucial na fita. A dureza com que a paisagem urbana é exibida cria um sentimento dúbio no espectador que reconhece aquelas avenidas e boates, mas também constata sua estranheza, graças às distorções das imagens.

Brant expõe um confronto direto entre personagens de classes sociais antagônicas de maneira intensa e desconcertante e mostra que a guerra, assim como a travada entre os suicidas palestinos e os tanques israelenses, há tempos assola o Brasil.

Cineweb-5/4/2002

Luara Oliveira


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