Cidades de papel

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Sinopse

Desde garoto, Quentin é apaixonado pela vizinha Margo. Um dia, ela entra pela janela, como costuma fazer, para pedir sua ajuda numa vingança contra o ex-namorado. Ele topa e ela, mais uma vez, desaparece. Então, ele chama seus amigos e sai à sua procura.


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Crítica Cineweb

07/07/2015

Há um pouco mais de um ano, A Culpa é das Estrelas (2014) transportava o fenômeno editorial alcançado pelo escritor John Green para o mercado cinematográfico. A primeira adaptação de um de seus livros conseguiu, mesmo com um orçamento modesto de US$ 12 milhões, arrecadar US$ 307 milhões nas bilheterias ao redor do mundo e emocionar a maioria do público. Por isso, Cidades de Papel (2015), o mais novo filme baseado em uma obra do autor, chega aos cinemas com todo o marketing remetendo ao longa “irmão” tão bem-sucedido.
 
Mas não se engane: embora se perceba o estilo de Green em ambas as histórias – tanto nas obras originais quanto nos derivados –, quem já leu as duas sabe que cada uma segue uma trilha diferente. O drama do ano passado, dirigido por Josh Boone, retratava o relacionamento de dois jovens com câncer, que tiveram a infância e adolescência alteradas pela doença; e apesar, ou por causa, de todo o sentimentalismo, era mais universal, principalmente por conta de seus carismáticos protagonistas. A produção que estreia agora, com a direção de Jake Schreier, está mais para um coming of age – um filme de formação, sobre amadurecimento – com todos os clichês da temática adolescente e a desconstrução de alguns deles, com a comédia dando mais o tom do que qualquer romance.
 
Pelo ponto de vista de Quentin Jacobsen (Nat Wolff), um garoto de Orlando – terra natal do escritor – prestes a se formar no ensino médio, o espectador conhece sua vizinha, a bela e misteriosa Margo Roth Spiegelman (Cara Delevingne). Amigos quando crianças, os dois acabaram se afastando com o passar dos anos, mas ele continua platonicamente apaixonado por ela. Então, quando em uma noite, a garota invade seu quarto pela janela, como nos velhos tempos, e pede sua ajuda em um plano de vingança juvenil contra a traição de seu ex-namorado e das amigas, Q – como é chamado pelos mais íntimos – não pensa duas vezes e parte para a aventura.
 
No entanto, Margo, cujas escapadas durante a adolescência se tornaram comuns e até lendárias, some do mapa depois daquela noite. O apaixonado vizinho acredita que as pistas que ela sempre deixa estão, desta vez, destinadas a ele, por ser a última pessoa que esteve com a jovem. A partir daí, ele se lança a uma investigação e até a uma viagem para descobrir seu paradeiro, contando com o auxílio dos amigos Ben (Austin Abrams) e Radar (Justice Smith), além da participação da namorada do último, Angela (Jaz Sinclair), e de Lacey (Halston Sage), uma das garotas mais populares do colégio e ex-BFF – gíria proveniente do inglês para melhores amigas “eternas” – de Margo. Nesta parte, que, por sinal, é o segmento mais interessante do best-seller, como também do longa ao embarcar no road movie, há um desenvolvimento extra em relação ao livro.
 
Se em A Culpa..., Scott Neustadter e Michael H. Weber – de (500) Dias Com Ela (2009) e O Maravilhoso Agora (2013) – faziam uma adaptação praticamente literal, agora, repetindo a parceria com Green, parecem já ter mais liberdade com o autor para um roteiro mais livre, ainda que fiel à estrutura e ao espírito da obra original. Entre as alterações estão a mudança na ordem cronológica de alguns acontecimentos, a exemplo da festa de formatura que é empurrada para o final; o resumo e a supressão de algumas passagens, o que significa, por exemplo, adeus à invasão ao Sea World, em uma decisão crítica da produção em relação ao maltrato de animais; atualiza os diálogos, já que o livro é de 2008 – embora a piada da camiseta dos Confederados permaneça intocada, se tornou ainda mais atual com os últimos acontecimentos nos Estados Unidos –; e adiciona momentos nerds hilariantes, como na impagável cena do Pokémon.
 
Por outro lado, a complexidade do texto literário se perde na tela, pois não há tanto tempo dedicado a desvendar quem é Margo, a partir das descobertas de Quentin. Isso permite à trama ganhar em ritmo. Contudo, um pouco mais de construção em cima da personagem e de Walt Whitman dariam uma carga de mistério maior à adolescente norte-americana, bem defendida pela modelo e atriz inglesa Delevingne. Ainda que a ótima metáfora das cidades de papel – criadas por cartógrafos para evitar cópias, mas que servem aqui como reflexão sobre uma artificialidade dos tempos atuais – seja bem traduzida, a ideia da “garota de papel” só aparece no final com M. A desconstrução das figuras idealizadas cabe mais a Lacey no miolo da história.
 
E se Q ainda permanece egoísta, há nesta versão sua valorização sincera, mesmo sendo sentimental, da amizade, um tema caro a Schreier já em sua estreia em Frank e o Robô (2012), pelo qual foi premiado no Festival de Sundance. Aliás, se Nat Wolff está bem no papel, quem chama mais a atenção mesmo são os amigos coadjuvantes, em especial Austin Abrams como um Ben que, após o exagero inicial, é o tipo que mais arranca risos da plateia, e Justice Smith com seu verossímil e carismático Radar. Mas voltando ao até então diretor independente, Jake ensaia algumas inovações no início de seu segundo longa, junto com a fotografia de David Lanzenberg combinada ao slow motion da edição de Jacob Craycroft. Porém, recorre ao básico na maior parte do tempo; não compromete por causa disso, mas falta o ímpeto jovem de mudança.
 
Com um livro inspirado inversamente em comédias do gênero dos anos 1980 e também da década seguinte, essa referência se reflete na trilha sonora, não só no momento da dança, mas indiretamente no trabalho do músico Ryan Lott, que sob o nome Son Lux faz uma mistura de eletrônica e hip hop, e assina o trabalho. Além de reconstruir sua própria música Lost It To Trying, ele faz uma seleção de indie pop marcada pelos sintetizadores – de Vampire Weekend a Santigold –, na qual, na realidade, usa mais a parte instrumental do que dá destaque às próprias canções, sendo Falling, do trio Haim, uma das raras exceções de hits marcantes na trama, junto ao folk de Bon Iver em Re: Stacks e do citado ícone da contracultura Woody Guthrie. Embora represente a artificialidade discutida na história, assim como uma geração altamente tecnológica, vale ressaltar que há momentos em que a trilha soa destoante das ações.
 
Por fim, em uma obra que se propõe a abordar as implicações das projeções que as pessoas fazem dos outros e de si mesmos, é melhor não criar expectativas quanto a ela, baseadas no livro ou no longa de sucesso do ano anterior. Abrace Cidades de Papel do jeito que ele é e decida por si só o quanto o filme é de “papel” e o quanto se trata de um retrato sincero e nostálgico do fim da adolescência.

Nayara Reynaud


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