Retorno a Ítaca

Retorno a Ítaca

Ficha técnica


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País


Sinopse

Os amigos Tania, Aldo, Rafa e Eddy se reúnem na casa de Aldo para reencontrar Amadeo, que há 16 anos deixara Cuba e vivia na Espanha. Na conversa que se estende pela tarde e a noite afora, surgem mágoas e revelações, repassando suas experiências.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

10/06/2015

A panorâmica sobre Havana que abre Retorno a Ítaca, de Laurent Cantet, define o olhar do filme sobre aquele país – que é amoroso, realista e procura ser abrangente, nunca miúdo. Ou seja, explora as contradições do apego difícil por Cuba que une um quinteto de amigos maduros, cujo reencontro move a trama.
 
Não fosse esse amplo e arejado panorama, descortinado a partir de um terraço de um dos tantos prédios arruinados do centro velho da capital cubana, se poderia dizer que o filme é um huis clos quase teatral, em que a câmera circula na intimidade destes personagens. Se não chega a sê-lo é também porque o mar e outras paisagens da ilha estão sempre presentes no olhar dos amigos que se degladiam e se acolhem com tanta contundência e ternura ao longo da história, assinada por Cantet e pelo escritor cubano Leonardo Padura, a partir de personagens de uma de suas obras, La novela de mi vida.
 
Neste quinteto, está um mosaico humano exemplar da Cuba de hoje: Tania (Isabel Campos), uma médica que não consegue viver do minguado salário e cujos filhos e ex-marido se exilaram em Miami; Aldo (Pedro Julio Díaz Ferrán), engenheiro que a custo consegue sobreviver reciclando baterias de automóveis; Rafa (Fernando Hechevarría), um pintor frustrado que vive de pinturas para turistas que detesta; Eddy (Jorge Perugorría), que deixou de ser escritor para tornar-se um bem-sucedido trambiqueiro, ativo em esquemas de mercado negro; e Amadeo (Nestor Jimenez), cuja volta da Espanha, depois de 16 anos, é o motivo da reunião dos velhos amigos de juventude.
 
Nas conversas do grupo, que se estendem por toda uma tarde e noite afora, saltam as lembranças, cobrindo desde os romances consumados ou não ao engajamento de todos, ainda jovens, nas tarefas de construção de uma revolução que lhes parecia então pura e justa – e agora se lhes apresenta como um amontoado de desilusões, resultando num país que nenhum deles sabe em que vai dar.
 
Vencedor do prêmio de melhor filme na Giornate degli autori, importante mostra paralela do Festival de Veneza, em 2014, Retorno a Ítaca equilibra-se num admirável tour de force destes ótimos atores, empenhados sinceramente em reavaliar esse passado comum, oscilando entre a raiva, a amargura, a alegria e a compaixão com uma naturalidade sensível.
 
Sem dúvida, um dos segredos do êxito do diretor francês (vencedor da Palma de Ouro 2008 em Cannes pelo documentário Entre os muros da escola) foi apostar na manutenção da língua local. Em nenhuma outra, aliás, poderia capturar-se o peculiar humor e a ternura cubanos, aliás, muito próximos da sensibilidade brasileira.
Se o filme pode ser lido como um retrato de melancolia e decepção, certamente não o é em relação à amizade e à vida. Sua jornada é, acima de tudo, uma crônica de reconciliação.

Neusa Barbosa


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Comentários:
  • 14/06/2015 - 00h14 - Por Miriam Waidenfeld Chaves Para mim, foi um dos melhores filmes que vi ultimamente. Aí vão algumas razões: a) o poder de síntese do diretor/roteirista,na medida em que nada no filme é gordura. Tudo, exatamente tudo tem seu sentido e seu lugar para mostrar as contradições, ambiguidades e dilemas, seja de Cuba, seja dos personagens. Ex: A crença de Aldo no projeto cubano e seu casaco com escritos em inglês; os comentários a respeito da invasão católica no país e a resistência das práticas religiosas africanas; o porco sendo morto no vizinho para segundos depois virar comida e coca cola e o uísque sendo bebidos no terraço onde acontece o reencontro dos amigos de juventude; a crença ainda juvenil de Aldo em sua ideologia e seu filho que quer sair de Cuba e por aí vai...poderia enumerar mais 10; b) pelo fato do diretor não tomar partido de nenhum dos personagens, você acaba se identificando com todos eles e, ainda, entendo os prós e os contras de suas opiniões, sentimentos e ressentimentos; c) o filme em uma hora e pouco explora com verdade várias questões humanas e políticas. Um grande filme!!!!!!!
  • 14/06/2015 - 02h46 - Por Nelson de Souza Neusa, gostei bastante de sua crítica. Sintética e precisa. Gosto especialmente do final: "Se o filme pode ser lido como um retrato de melancolia e decepção, certamente não o é em relação à amizade e à vida. Sua jornada é, acima de tudo, uma crônica de reconciliação."

    Interessante também suas observações do porquê o filme foge do simplesmente teatral.

    Resta uma correção: "Entre os Muros da Escola" não é um documentário. O clima é de doc. Os alunos podem/devem ser reais. Mas há um trabalho de ficção.
    Abs,
    Nelson
  • 16/06/2015 - 12h27 - Por Neusa Barbosa Olá Nelson:
    obrigada pelos seus comentários.

    mas uma observação: "Entre os muros da escola", apesar de ter um trabalho ficcional (na recriação de episódios reais especialmente), nem por isso deixa de ser um documentário. Assim foi considerado em Cannes, inclusive.

    Hoje em dia, é muito comum essa mistura. Talvez o termo mais correto fosse então "docudrama", que a gente tem usado bastante também.

    abs

    Neusa
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