Insubordinados

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Sinopse

A fim de suportar a tensão da doença de seu pai, que está internado, Janete começa a escrever um livro policial. Os personagens incorporam detalhes dela mesma e das pessoas que ela encontra no hospital.


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Crítica Cineweb

17/03/2015

“Todas as melhores histórias são, na realidade, nada mais que uma história: a história da fuga. É a única coisa que nos interessa, a todos e em todos os tempos: como escapar”. A frase do ensaísta, poeta e crítico inglês Arthur Christopher Benson (1862-1925) capta a essência desta necessidade humana de criar histórias como uma forma de fuga da realidade e, simultaneamente, usar a ficção para compreendê-la melhor. O pensamento também resume a ideia de Insubordinados, filme de Edu Felistoque que destrincha esse tema de forma eficiente, poética e inusitada.
 
Trata-se de uma experiência cinematográfica brasileira única, que tem suas origens na série televisiva Bipolar, exibida em 2010 no Canal Brasil e, em 2014, na Warner Channel. Com roteiro de Júlio Meloni, direção de Felistoque e Sílvia Lourenço, Rodrigo Brassoloto, Sérgio Cavalcante e Priscilla Alpha no elenco, os doze episódios da produção mostravam o cotidiano nada heroico de um trio de investigadores de uma delegacia paulistana, que enfrenta dificuldades para conciliar suas vidas pessoais com as atividades profissionais. Sem conseguir lidar com seus próprios problemas, eles acabam cometendo erros também no trabalho, um reflexo da realidade dos policiais, não só em São Paulo, mas em todo o país.
 
Convidada pelo diretor para escrever o roteiro de um longa a partir do ponto de vista de sua personagem Diana, e tendo à disposição parte do material gravado na série e apenas um hospital como locação, Sílvia Lourenço subverteu a trama policial em um drama universal. Para isso, a atriz, que também é roteirista – ela já colaborou com Luiz Bolognesi, em As Melhores Coisas do Mundo (2010) e Uma História de Amor e Fúria (2013), e escreveu a adaptação Como Esquecer (2010) –, preferiu criar a Janete (Lourenço), uma mulher que passa seus dias no hospital onde seu pai está internado e começa a escrever um livro para suportar a situação. Justamente um romance policial, já que seu pai era um e suas principais lembranças paternas são dos dois brincando, vestidos ao estilo Cops (1989).
 
Assim, ela insere a si mesma e todos os que a cercam naquele ambiente hospitalar dentro da trama, centrada na fictícia 643ª DP. Janete se transforma em Diana, a delegada assistente impetuosa que também sofre com um pai acamado, servindo assim como seu alter ego. Do mesmo jeito, o vendedor da lanchonete do local se torna Carlão (Rodrigo Brassoloto), um investigador que não consegue esquecer o seu passado na prisão; o médico que ela conhece por lá vira o Latrina (Sérgio Cavalcante), policial alcoólatra que tenta voltar a ver seu filho; e a doutora Rocha (Priscilla Alpha), responsável por cuidar de seu progenitor, é a delegada-chefe nas páginas da escritora amadora.
 
Na inserção dessa narrativa paralela, a produção faz uma montagem a partir do material de Bipolar, ligando esses recortes com um recurso utilizado em abundância e, diversas vezes, erroneamente, no cinema brasileiro: o off. Mas, neste caso, seu uso era inevitável e, embora no início pareça não se encaixar, logo a narração entra nos trilhos. Outra questão é que essas histórias paralelas à da Diana acabam desviando levemente o foco no drama de Janete, tanto como criadora quanto na pele de sua criatura, mas também demonstram essa necessidade dela em buscar em outras vidas um sentido para a sua existência solitária.
 
Uma solidão que se expressa visualmente na fotografia de Duda Catenacci, com os espaços criados nos enquadramentos e o vazio de cores de seu P&B, e na direção de Edu, que prima pelos longos silêncios, às vezes pontuados pelo ritmo constante das máquinas hospitalares, assim como a de tantas outras que fazem barulho pela cidade. Por isso, o filme consegue dialogar tão bem com o público, que rapidamente se identifica com a protagonista, não apenas porque suportar o drama de uma doença, seja direta ou indiretamente, é algo tão comum, mas porque sentir-se solitário dentro de si mesmo é inerente a todos, em algum momento da vida.
 
Por fim, vale frisar que Insubordinados é a primeira parte da “Trilogia da Vida Real”, na qual os próximos longas do diretor serão focados nos colegas de Diana, Carlão e Latrina, mas sem a participação de Sílvia no elenco, já que a atriz está se dedicando a projetos na TV.
 
Leia a entrevista da roteirista e atriz Silvia Lourenço

Nayara Reynaud


Trailer


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