Branco Sai, Preto Fica

Ficha técnica


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País


Sinopse

Em 1986, a violenta repressão policial a um baile black na Ceilândia, cidade-satélite de Brasília, modifica drasticamente a vida de alguns jovens negros que o frequentaram. Anos depois, eles se reinventaram e levam sua jornada de resistência, numa realidade paralela, em que até a ficção científica tem seu lugar.


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Crítica Cineweb

17/03/2015

A repressão policial a um baile black na Ceilândia, em 1986, forneceu o rastilho que percorre o filme Branco Sai, Preto Fica, em que o cineasta Adirley Queiroz (A Cidade é uma Só?) revisita seu estilo e temáticas habituais de maneira contundente e original, transgredindo fronteiras entre gêneros. Além de incorporar elementos marcadamente documentais, o trabalho transita entre o drama e a ficção científica, com surpreendente fôlego e boa resolução.
 
Premiado em festivais como Brasília e Tiradentes, o filme se energiza com sua própria liberdade, concretizando uma reflexão política sobre exclusão social, repressão policial e racismo com bastante propriedade. Seus personagens principais são encarnados por homens negros moradores da Ceilândia, como Marquim da Tropa e Shockito, que carregam na carne as marcas da repressão policial – Marquim, que é músico, ficou paraplégico e Shockito, jogador de futebol, usa uma prótese no lugar de uma perna amputada depois de uma perseguição por policiais a cavalo.
 
Essas cicatrizes visíveis somam-se a outras, como o isolamento desses homens numa periferia desassistida, em que eles cultivam também uma raiva e um projeto de vingança anarquista contra Brasília, o símbolo do poder que os oprime.
 
A ficção científica se insere em detalhes, como a exigência de um passaporte para que os moradores das chamadas “cidades-satélite” entrem em Brasília – documento que se torna naturalmente objeto de um mercado negro  - e também nas intervenções de um enviado do futuro, Dimas Cravalança, que veio ao passado buscar provas contra o Estado brasileiro por crimes cometidos. E aí, certamente, também se infiltra o humor cáustico da história.
 
No debate do filme, em Brasília, em 2014, o diretor Adirley afirmou que ele reflete muito a experiência de sua geração, homens na faixa dos 40 anos que sentiram muito na pele esse distanciamento em relação a Brasília. “Brasília para nós é tão distante quanto para o Rio ou São Paulo. A gente ia lá passear”, comparou. Por isso, a ideia do passaporte surgiu naturalmente na história.
 
O filme foi realizado a partir de ideias precisas, desenvolvidas com muitas conversas com os atores, mas não amarrado a um roteiro muito rígido em termos de falas, só de situações. Para Adirley, “o desafio era trazer a força dos personagens para o filme sem se tornar paternalista”. Outra preocupação foi incorporar a raiva dos personagens, inclusive contra as imposições dos próprios mecanismos do cinema (câmera, som, edição), pois isso, a seu ver é que garante um “filme minimamente honesto”.
 
Ele enxerga a obra como um “retrato de uma geração masculina, homens de periferia que ficavam nas esquinas, cujas relações com as mulheres se estabeleciam apenas nos fins de semana”. Ele admitiu que esses homens, héteros, eram impregnados de uma cultura machista, eventualmente até com traços homofóbicos. E que não consegue assistir ao filme inteiro, porque se emociona. “Acho o filme muito dolorido, muito melancólico. Esses caras, esses ‘homens da quebrada’, estão sendo exterminados, até hoje, e não só na Ceilândia”. 

Neusa Barbosa


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