O jogo da imitação

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Sinopse

Matemático brilhante, Alan Turing foi convocado a integrar o time secreto de especialistas que, na Inglaterra, lutavam contra o tempo para quebrar o código de comunicações dos nazistas. Mas o segredo de sua homossexualidade - que era crime na Inglaterra então - mais tarde provoca sua ruína.


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Crítica Cineweb

03/02/2015

Sentar no computador, abrir o notebook ou pegar o smartphone para acessar a internet, ler, escrever, calcular e mais uma imensa lista de possíveis tarefas fazem parte da rotina das pessoas – ou das não marginalizadas digitalmente – na contemporaneidade. É justamente no fato de dar o devido reconhecimento ao trabalho de Alan Turing (1912-1954), um dos responsáveis por tudo isso, inclusive pela produção e leitura deste texto, que se encontra, junto com as atuações, o maior feito de O Jogo da Imitação (2014), de Morten Tyldum.
 
O matemático inglês Turing foi pioneiro no conceito do que viria a ser o computador, da própria ciência da computação e da inteligência artificial. E apesar de ter tido papel fundamental para a vitória do seu país e dos outros Aliados na II Guerra Mundial, sua contribuição no conflito permaneceu secreta por meio século. Além disso, foi humilhado publicamente por ser homossexual em uma Inglaterra onde, há apenas 60 anos atrás, isso era ilegal, sendo condenado a injeções hormonais que provocam castração química.
 
Com uma história de vida tão incrível e trágica, não é de se espantar que o roteiro do novato Graham Moore, inspirado na biografia de Andrew Hodges, Alan Turing: The Enigma, entrasse, em 2012, na Black List, lista anual dos melhores scripts ainda não produzidos. Não foi pelo ineditismo: a trajetória do criptoanalista já fora encenada na peça de Hugh Whitemore que seria posteriormente transformada no telefilme Breaking the Code (1996) – sem falar no filme Enigma (2001), cuja trama rocambolesca mudava os fatos e não mostrava Turing.  
 
Apoiado sobre três momentos marcantes na existência de Alan, Moore costura eficientemente seu roteiro, começando com o interrogatório policial ao qual Turing (Benedict Cumberbatch/Alex Lawther, quando jovem) foi submetido em 1951, que seria seguido pela sua condenação, o terrível tratamento e culminaria num aparente suicídio por ingestão de cianeto. Ressente-se aí que a história da sua sexualidade seja pouco explorada, mas essa discrição condiz com as atitudes veladas que os homossexuais eram obrigados a ter na época.
 
O inquérito serve de base para a narração em off do protagonista, durante a qual entram algumas lembranças de seus tempos escolares, quando a amizade especial com seu colega Christopher (Jack Bannon) foi essencial para suportar o bullying que sofria. Entretanto, o longa se debruça mais no período da II Guerra, quando, com 27 anos, o jovem prodígio participa do recrutamento realizado pelo comandante Denniston (Charles Dance) e o espião Stewart Menzies (Mark Strong), para montar uma equipe secreta em Bletchley Park – uma suposta fábrica de rádios - que fosse capaz de decodificar as mensagens inimigas, criptografadas pelos alemães com as máquinas Enigma.
 
Não se menciona no filme que especialistas poloneses já haviam decifrado o código nazista e compartilhado informações com franceses e ingleses antes da invasão alemã, em 1939. Mas como novos ajustes eram feitos constantemente pelos nazistas, a criptografia Enigma se tornava cada vez mais complexa e descobrir o conteúdo de um único telegrama levaria muito tempo, como mostrado na produção. Por isso, Alan, à parte do grupo liderado pelo campeão de xadrez Hugh Alexander (Matthew Goode) e pedindo verbas diretamente ao primeiro-ministro Winston Churchill, investe na construção de uma máquina capaz de processar os milhões de possibilidades de codificação a tempo de antever ataques e que levou anos para funcionar.
 
Essa atitude é só uma das apresentadas em O Jogo da Imitação – nome do teste de seu mais famoso artigo sobre inteligência artificial – que caracterizam a personalidade de Turing, uma pessoa contida cujo máximo elogio seria um “isso realmente não é uma má ideia”. Essa altivez e seu pensamento extremamente lógico, incapaz de perceber as sutilezas de linguagem, geram alívio cômico em diversos momentos, mas também revelam o drama deste gênio que se dedicou à criptografia por não conseguir decifrar o discurso humano – há suspeitas, inclusive, de que ele tinha Síndrome de Asperger.
 
Benedict Cumberbatch, no papel de sua carreira, alcança todas essas nuances com uma incrível vivacidade, fazendo o público pensar que só ele seria capaz de interpretá-lo. O ator foi indicado ao Oscar, assim como Keira Knightley, que interpreta Joan Clarke, a única mulher a fazer parte da equipe e que chegou a ser pedida em casamento por ele, de uma maneira bem inusitada, para permanecer com o grupo. A atriz torna sua coadjuvante interessante ao mostrar não só alguém que foi capaz de adentrar no mundo do matemático, mas cuja vontade de impor sua voz frente a todos os obstáculos fez dos dois grandes amigos.
 
O elenco, aliás, é o principal trunfo desta produção milimetricamente pensada para o Oscar. Suas oito indicações tiveram o dedo da distribuição dos irmãos Weinstein, porém o filme tem seus méritos técnicos, especialmente, na produção de arte de Maria Djurkovic, com máquinas da época; na montagem de William Goldenberg, enfatizando o heroísmo de Turing e seus colegas; e na trilha eficiente de Alexandre Desplat. Mas, afinal, venceu somente o Oscar de roteiro adaptado.
 
Em sua estreia numa produção em língua inglesa, o norueguês Tyldum pode não mostrar a mesma força de seu trabalho anterior, o surpreendente thriller Headhunters (2011), adaptado de um best-seller de Jo Nesbø, que é o maior sucesso comercial de seu país. Ainda que peque pelo conservadorismo, sua direção mantém a tensão necessária para fisgar o espectador.
 
No entanto, é somente quando o grupo consegue finalmente decifrar o Enigma que o cineasta imprime no “poder de ser Deus” conferido a eles, o questionamento ético que dá novo impulso à obra, que também lembra o absurdo da criminalização da homossexualidade na Inglaterra. Alan Turing, com toda a sua genialidade e serviços prestados à nação, só conseguiu o perdão real por sua “indecência grave” postumamente, em 2013. Outros 49 mil homens comuns precisam dessa reparação, mesma que póstuma, do mal causado por homens da lei cujos “poderes divinos” afetaram a vida de tantos.

Nayara Reynaud


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Comentários:
  • 06/02/2015 - 15h39 - Por Raquel Escudeiro Reynaud Excelente crítica. Preciosismo nos detalhes de caráter histórico e técnico, além de apresentar ampla capacidade analítica. Parabéns. F
  • 08/02/2015 - 15h26 - Por Demas Só uma correção: Stewart Menzies era o chefe do Serviço Secreto de Inteligência da Inglaterra.
  • 10/02/2015 - 01h05 - Por Marcos Excelente filme. Dificilmente ganhará oscar de melhor filme ou melhor ator, mas vale a pena assistir, mais de uma vez, e ver quem criou o computador e conseguiu encurtar a segunda guerra por dois anos. Sem falar que Benedict está soberbo.N
  • 27/05/2016 - 15h32 - Por Maria Alvarado Na minha opinião é um dos melhores filmes de drama. É muito interessante como eles falam mais caráter do que o que ele tem, que eu acho que é o que mais teria. O desempenho de Cumberbatch é muito bom, não tanto Knightley.
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