Trono manchado de sangue

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Voltando de uma guerra a serviço de seu soberano, o capitão Washizu, acompanhado do amigo Miki, perdem-se numa floresta. Ali encontram uma feiticeira, que prevê que Washizu se tornará rei. O acontecimento desperta sua ambição, que é estimulada por sua esposa, lady Asaji.


Extras

Áudio dolby digital 2.0; formato de tela 1.33:1; extras: documentário sobre a produção (23 min); trailer de cinema (4 min)


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

19/12/2014

Com força e originalidade, Akira Kurosawa foi capaz de mostrar que havia mais semelhanças japonesas com a história britânica de Macbeth, de William Shakespeare, do que sonhava a vã filosofia.
 
Contando com outros três roteiristas (Hideo Oguni, Shinobu Hashimoto e Ryuzo Kikushima), o cineasta não se limitou a transportar geograficamente a história do nobre levado à traição de seu rei pela sede de poder, conduzindo a um rastro irresistível de morte e destruição. Introduziu um sabor oriental na história emprestando recursos do teatro Nô, a tradicionalíssima arte nipônica, marcando por seus preceitos a maquiagem e movimentação dos atores, particularmente a atriz Isuzu Yamada, que compõe a especialíssima Lady Asaji Washizu, a lady Macbeth da trama.
 
As liberdades tomadas em relação à conhecida e muito montada e filmada história original mereceram elogios de ninguém menos do que o shakespeariano ator e diretor britânico Laurence Olivier – que, numa conversa com Kurosawa, mostrou-se impressionado com a cena da morte do protagonista Taketoki Washizu (Toshiro Mifune), uma invasão de corvos de seu castelo e também uma gravidez de lady Asaji (detalhe inexistente no texto de Shakespeare).
 
Nenhuma gota da dramaticidade da história original é perdida nesta releitura, em que Kurosawa situa como cenário principal um castelo – o castelo da Teia de Aranha – aos pés do Monte Fuji, obra requintada de seu diretor de arte Yoshiro Maruaki.
 
Uma única bruxa (Chieko Naniwa), fiando numa roca no meio da névoa, numa floresta, dá conta de instalar o clima surreal, com as profecias que tentam o capitão Washizu para apossar-se do trono mediante assassinato. Os fantasmas que o assobram não poderiam, igualmente, ser mais japoneses, instaurando um clima de mundo entre as fronteiras do real e do imaginária com uma consistência exemplar.
 
Se Kurosawa tornou-se conhecido internacionalmente a partir de Rashomon (Leão de Ouro em Veneza em 1950), foi para o lançamento mundial de Trono Manchado de Sangue que ele pela primeira vez viajou para fora de seu país. Apresentando seu filme em Londres, na abertura de um festival do National Film Theatre, é que ele conheceu Olivier, René Clair, Vittorio de Sica e John Ford – que o safou de um aperto numa ocasião em que, estando sem intérprete e não falando inglês, ofereceu-lhe um drinque, falando um pouco de japonês (Ford estivera no Japão após o fim da II Guerra).
 
Esta viagem, vista na perspectiva destes quase 60 anos do filme, representa como Kurosawa conquistava ali seu lugar de mestre, reconhecido por diretores de todo o mundo, capaz de afirmar sua singularidade de opinião, mesmo sobre um personagem tão emblemático da cultura ocidental como Macbeth, sobre o qual poucos no mundo poderiam ousar discutir com Laurence Olivier. Tê-lo feito, aliás, foi uma das grandes alegrias da vida de Kurosawa.
 
Um extra muito interessante deste DVD coloca o diretor japonês falando sobre sua visão cristalina do cinema – “um filme deve ser interessante, fácil de entender e tocar o coração”.
 
Também se contam detalhes pitorescos da produção e descreve-se a admiração de Kurosawa sobre o Nô. Ele deixou pronto, aliás, um roteiro sobre o tema, que pretendia usar para um documentário, intitulado A Beleza do Nô.

Neusa Barbosa


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