China/Memórias de Xangai

Ficha técnica

  • Nome: China/Memórias de Xangai
  • Nome Original: Chung Kuo/Hai Chang-Shuang Qi
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: China
  • Ano de produção: 1972
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 346 min
  • Classificação: Livre
  • Direção: Michelangelo Antonioni, Jia Zhang Ke
  • Elenco:

Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 0 votos

Vote aqui


Locais de filmagem


Extras

"China" - áudio em italiano; colorido; formato original: 1.33:1 (208 min); "Memórias de Xangai - áudio em mandarim; colorido; formato original: 2.35:1 (114 min); Extra: Depoimento do cineasta e montador Carlo Di Carlo sobre a filmagem de "China" (24 min)


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

28/11/2014

Realizado em 1972, o documentário China, de Michelangelo Antonioni, por razões alheias à sua vontade, virou um filme maldito, mais comentado do que visto. Na China mesmo, sua primeira sessão só aconteceu mais de 30 anos depois de sua realização. E seu diretor, então já doente e debilitado, nem mais se dispôs a participar da histórica exibição, restrita, porém, à Academia de Cinema de Pequim. Naquele país, até hoje, o filme não teve distribuição regular.
 
Realizado por proposta da RAI (a emissora de TV estatal italiana), com apoio do então primeiro-ministro chinês Chu En Lai, que pretendia ampliar a visibilidade do gigante comunista fora de suas fronteiras, o documentário foi travado a cada passo pela surda disputa de poder que se desenrolava nos bastidores. Ou seja, entre o primeiro-ministro e o chamado “bando dos Quatro” (do qual fazia parte mesmo a esposa do líder supremo, Mao Tsé Tung). Os “Quatro” eram os mentores da famigerada Revolução Cultural, iniciada por volta de 1966 e, seis anos depois, ainda impondo censuras e expurgos em nome da ortodoxia ideológica que vigiava e punia os “desvios capitalistas”.
 
Filmado em apenas 22 dias, num cronograma apertado e assim imposto pelas autoridades chinesas – que ainda proibiram o cineasta italiano de filmar muito do que pretendia originalmente – o documentário resultou melhor do que a encomenda. Apesar do caráter de obra de emergência, valeu muito o instinto de um diretor que havia iniciado a carreira como documentarista (Gente do Pó, 1947).
 
Ainda que atropeladas as suas melhores intenções e sob monitoramento constante de sua liberdade de circulação, Antonioni consegue revelar o que procurava – os chineses. Crianças em suas escolas, operários, camponeses em sua lida agrícola, aposentados numa casa de chá, todos oferecem ao diretor a face de um país sem pressa e sem fome, em que o figurino de modelo e cores quase únicos simboliza o caráter coletivista de uma revolução que se acredita irreversível.
 
Uma das formas de driblar as restrições está na narração em off, em que Antonioni introduz observações mordazes, como sobre o conteúdo político da maioria das canções cantadas pelos alunos de um jardim de infância. Também comenta quando faz imagens que seus guias tentaram impedir, como as de um pequeno mercado livre informal de produtos agrícolas – que destoava do modelo coletivista estatal vigente – ou quando força uma parada não-prevista no itinerário num vilarejo, onde camponeses que jamais haviam visto um ocidental não escondem sua curiosidade pela trupe italiana, devidamente registrada por suas câmeras.
 
Uma parte do filme é dedicada a Xangai, a grande cidade que havia sido sede das grandes companhias ocidentais antes da revolução maoísta, e cujo nome era símbolo de crime, corrupção e vício – mas também fora o berço do Partido Comunista Chinês, em 1921. É ali que Antonioni realiza um dos segmentos mais bem-construídos, realçando o caráter de uma cidade industrializada há décadas e agora incorporada à ideologia comunista, onde se vê nas ruas praticantes do tai-chi (que a revolução a princípio combateu), finalizando com um feérico espetáculo de ginastas e acrobatas - que funciona como uma poderosa metáfora para a extraordinária flexibilidade e dualidade do país, somando o arcaico e o moderno de uma maneira indissociável e profunda, ao mesmo tempo que se lança numa tentativa inédita de mudança social e política, contaminada, no entanto, pelo veneno da ortodoxia da Revolução Cultural.
 
A mesma cidade de Xangai e as cicatrizes profundas da Revolução Cultural são a matéria-prima do outro filme que ocupa este DVD duplo, Memórias de Xangai, de Jia Zhang Ke. Realizado em 2010 – ano em que a cidade sediaria uma Feira Mundial, sofrendo diversas intervenções urbanas -, o documentário alinha depoimentos de vítimas desta revolução, como o filho de uma atriz perseguida como “capitalista”, dando início a uma série de tragédias familiares. Também o guia de Antonioni, Zhu Qiansheng, conta que, dois anos depois desse trabalho, foi preso, submetido a crítica pública, tratado como traidor – por terem considerado o filme como “erva venenosa”, apesar de ele mesmo nunca o ter assistido até hoje.
 
Mas o filme de Zhang Ke não se esgota na intenção de denunciar as mazelas deste período obscuro da história chinesa recente. Mergulhar na riqueza humana de seus personagens, que incluem ex-milionários e filhos de gângsters, está acima disso, incorporando histórias de outros momentos e tons. Como a mulher que aos 50 anos ainda chora a tragédia de não ter conhecido o pai, jovem de 23 anos, militante comunista, executado por sabotagem poucos meses antes da vitória de Mao. As únicas fotos que restaram desse pai são justamente as publicadas nos jornais da época, quando ele era conduzido à morte.
 
Outras trajetórias apontam para um presente multifacetado, como um romancista que largou a escola e divide o sucesso na literatura com a inusitada profissão de corredor de automóveis. Ou o homem falido em 1988 que começou a especular com títulos e enriqueceu depois da reforma e abertura do regime. Estes, símbolos de uma nova China, não menos intrigante do que a captada pelo olhar de Antonioni.
 
Um diferencial importante neste reflexivo trabalho de Zhang Ke é intercalar imagens destes depoentes e de Xangai, no passado e no tempo presente, também recorrendo a trechos de diversos filmes feitos ali – como Rio Souzhou, de Lou Ye (2009), Guerra em Xangai, de Wang Bing (1959), Flores de Xangai, de Hou Hsiang-Hsien (1999, um de seus entrevistados) e também um trecho do filme de Antonioni, que introduz o depoimento de seu malfadado guia (que hoje até ri, filosoficamente, de suas aflições na época).
 
É esta soma do olhar de fora, de Antonioni, com o olhar de dentro, de Zhang Ke, que sustentam a riqueza deste lançamento, promovendo um diálogo peculiar e enriquecedor, num verdadeiro jogo de espelhos. 

Neusa Barbosa


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança