A Primeira Guerra no Cinema

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Seis clássicos lembram o centenário da I Guerra Mundial no cinema: "A Grande Ilusão", de Jean Renoir; "O Rei e o Cidadão", de Joseph Losey", "Guerra, Flagelo de Deus", de G.W. Pabst; "Cruzes de Madeira", de Raymond Bernard; "Adeus às armas", de Frank Borzage, e "O Grande Desfile", de King Vidor


Extras

3 DVDs; Dolby digital 2.0; extras: apresentação de "A Grande Ilusão" por Ginette Vincendeau (12 min); a restauração de "A Grande Ilusão" (3 min); trailers de "A Grande Ilusão", para 1937 e 1958 (13 min)


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

21/11/2014

Os cem anos do início da I Guerra Mundial (1914-1918) são lembrados pelo oportuno pacote de DVDs que reúne seis filmes marcantes sobre o período, alguns feitos poucos anos depois, ainda no calor de um acontecimento que foi um divisor de águas – uma guerra que causou cerca de 9 milhões de mortos, 30 milhões de feridos e não foi, como se pretendeu, “uma guerra para acabar com todas as guerras”.
 
Alguns títulos são verdadeiros clássicos, como é o caso de A Grande Ilusão (1937), do francês Jean Renoir, em bela versão restaurada, que destila seu pacifismo a partir da ironia do título. Renoir, aliás, fala com conhecimento de causa desta guerra, em que ele foi soldado e ferido, apesar da oposição de seu pai, o pintor Pierre-Auguste Renoir, ao seu alistamento.
 
O roteiro, assinado pelo próprio Renoir e por Charles Spaak, fala da guerra sem estar no front, a partir do aprisionamento de oficiais franceses, como o piloto Marechal (Jean Gabin), num campo de prisioneiros administrado pelos alemães, tendo à frente o oficial von Rauffenstein (Eric von Stroheim). Renoir fala da guerra como coisa coletiva, como supressão da liberdade, como derramamento de sangue, sujeira, opressão e cansaço. Mas também há momentos de descontração, como a encenação de uma peça de teatro em que os oficiais ingleses cantam e alguns até se vestem de mulher, e que culmina com a climática cena em que chega a notícia da retomada de um posto pelos franceses e que culmina numa entusiástica interpretação da Marselhesa, o hino francês, uma das mais belas cenas do filme.
 
Em todos os detalhes, Renoir nunca deixa de salientar o que para ele era mais importante, a solidariedade de classes superando as diferenças entre nacionalidades, como ele mesmo explica no extra mais interessante do DVD. Nesse extra, detalha-se também a não menos fascinante perda e reencontro do filme, que foi proibido na Alemanha nazista e na França colaboracionista de Vichy, e deixou de circular por vários anos, até ser reencontrada uma cópia (apreendida pelos alemães) que permitiu seu relançamento, em 1958.
 
Outro título primoroso desta seleção é O Rei e o Cidadão (1964), do inglês Joseph Losey, que retrata o julgamento de um jovem soldado desertor, Arthur Hamp (Tom Courtenay, que vai ser defendido por um oficial, o capitão Hargreaves (Dirk Bogarde). O talento do diretor inglês se imprime a cada fotograma, dando ao filme um clima de huis clos, alternando tomadas do alojamento dos soldados, na trincheira enlameada e sob chuva permanente, assolada por ratos e piolhos, e o pequeno tribunal improvisado em que se joga a vida e a morte do soldado, um ingênuo sapateiro que se alistou com uma ideia embevecida do que eram a guerra e a bravura.
 
Dentro e fora deste tribunal, discute-se a fragilidade dos conceitos de heroísmo e ética, com uma consistência dramática sustentada igualmente pelas performances precisas de Courtenay (vencedor do troféu de melhor ator em Veneza) e Bogarde.
 
Os outros quatro títulos do pacote mergulham mais no inferno das trincheiras, sendo que dois deles primam pelo realismo e a contundência. Um deles é o alemão Guerra, Flagelo de Deus (1930), de G.W. Pabst, adaptando romance de Ernst Johanssen.
 
Único filme aqui a mostrar a guerra pelo lado dos alemães, acompanha as tropas do país em sua incursão pela França, em 1918, focando-se na ação febril nas trincheiras, numa guerra suja, coletiva e sem outra motivação que a pura sobrevivência – não há heróis à vista nesta campanha. Também a população civil é vista em sua busca pela pouca comida disponível, sofrendo em longas filas, lidando com as parcas perspectivas.
 
As licenças, sonho de todo soldado, também são motivo de angústia, como a vivida por Karl (Gustav Diessel) que, ao voltar para casa, encontra a mulher (Hanna Hoessrich) na cama com outro, o açougueiro (Carl Balhaus) – numa situação que descreve a miséria em que as famílias se encontram com seus homens no front. Por isso, o tenente (Claus Clausen) diz que não gosta de licenças, porque seus homens, ao voltar, desanimam os demais.
 
As batalhas, no meio da lama, são verdadeiros combates às cegas, retratadas com crueza impressionante, que definem o desperdício de vidas humanas e de todo e qualquer idealismo daquela geração.
 
Outro exemplo deste realismo contundente é o título francês Cruzes de Madeira (1933), de Raymond Bernard – também uma versão restaurada -, que acompanha o esforço das tropas francesas, uma multidão de soldados sujos e rastejantes nas trincheiras enlameadas, convivendo com a fome, a falta de higiene, os mortos sem sepultura, ao mesmo tempo que devem resistir num alojamento, ouvindo os alemães, do outro lado da parede de pedra, cavando buracos para instalação de minas que, a qualquer momento, farão todos voar pelos ares.
São particularmente veementes as imagens da retomada de um vilarejo, que demora dez longos dias, e a resistência de um grupo de soldados, refugiados num cemitério, convivendo com a dor, o cansaço e a perda dos amigos.
 
O heroísmo e o romantismo infiltram-se nos dois últimos títulos da seleção, ambos produções de Hollywood. Único filme mudo do pacote, O Grande Desfile (25), de King Vidor, circula numa inédita versão restaurada, onde se observa o uso de algumas cores, com belo efeito. O ano é 1917, quando os EUA entram na guerra. É o tempo de virada também para um rico herdeiro de um industrial, Jim Apperson (John Gilbert), um boa vida que decide alistar-se, para surpresa geral na família.
 
Na primeira metade do filme, na campanha na França, a vida de Jim não passa de um grande acampamento, em que ele não vê uma batalha de perto, mas tem a oportunidade de confraternizar com pessoas de classes e experiências de vida muito diferentes da dele – inclusive apaixonando-se por uma camponesa francesa, Melisande (Renée Adorée), que o faz esquecer da namorada que deixou em casa (Claire Adams).
 
Mas ação não vai faltar no caminho de Jim, no avanço sobre as trincheiras alemãs, com várias sequências aéreas, num tom bem mais heroico do que os outros filmes, mas também muito climático. O romance tempera a sequência final.
 
O último título, Adeus às Armas (32), de Frank Borzage, adaptando romance homônimo de Ernest Hemingway, carrega a mão no melodrama para contar o envolvimento de um tenente norte-americano, Frederic Henry (Gary Cooper), com uma enfermeira inglesa, Catherine Berkley (Helen Hayes), arriscando tudo, até a deserção, para tentar reunir-se a ela. O filme venceu dois Oscars, fotografia e som.

Neusa Barbosa


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