Ilegal

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 1 votos

Vote aqui


País


Sinopse

A defesa de uma discussão sobre a liberação da maconha, seja para uso de consumidores individuais, seja para usos medicinais, é o tema deste documentário.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

07/10/2014

A legalização da maconha sempre foi um assunto tabu no Brasil, mas é possível notar que as discussões acerca do tema têm sido cada vez mais constantes, tornando-se até pauta política de alguns presidenciáveis nestas eleições. Outra razão para o debate estar em voga foi a exibição recente da matéria no Fantástico, da TV Globo, apresentando o caso da menina Anny Fisher, cujo estado avançado de sua doença lhe causa uma série de convulsões por dia, que só foram interrompidas, até então, com o uso de Canabidiol (CBD). O problema é que o remédio é produzido a partir da Cannabis sativa, ou seja, da planta da maconha, que é uma substância ilegal no país.
 
O drama dos pais da criança de cinco anos que traficam a droga medicinal para a filha repercutiu. Mas uma pequena parte do público sabe que o caso foi veiculado pela primeira vez na reportagem do jornalista Tarso Araújo, na revista Superinteressante. Em março foi postado no YouTube um vídeo mostrando a situação da menina, que faz parte da campanha Repense, que arrecadou verba através de crowdfunding – financiamento coletivo, via internet neste episódio – para o projeto de conscientização sobre o tema, encabeçado pelo próprio editor da publicação, que também é autor do Almanaque das Drogas e do Blog Psicoativo.
 
O sucesso do curta-metragem motivou a matéria no programa dominical e em outros veículos, ratificando a realização do documentário em longa-metragem de mesmo nome, Ilegal (2014), que estreia em circuito nacional. A primeira produção cinematográfica da Superinteressante conta com Tarso na direção, junto a Raphael Erichsen da 3FilmGroup, coprodutora do filme.
 
Como é possível perceber, trata-se de um documentário produzido em curto espaço de tempo. As primeiras gravações do curta, que constam no início deste longa, ocorreram em fevereiro e as últimas, em agosto, menos de dois meses antes de seu lançamento. A urgência do assunto para seus realizadores e envolvidos deve ter motivado a pressa, que em momentos pontuais prejudica o filme, que ainda sim tem tratamento técnico elogiável em seu conjunto.
A história de Anny é a principal do longa, que abre apresentando a dura rotina dos pais dela, Katiele e Norberto, tendo de lidar com as sucessivas crises convulsivas – antes do uso do CBD, eram de 60 a 80 por semana. Os diretores, por sinal, não se furtam em mostrar abertamente uma das crises da menina. Certo sensacionalismo, talvez; mas, para as mães e aquelas pessoas que sofrem ou conhecem alguém que tenha ataques epilépticos, é impossível não se sensibilizar com a situação.
 
O filme, então, mostra outros casos de crianças acometidas de males semelhantes, que também fazem uso às escondidas ou pleiteiam na Anvisa a liberação do Canabidiol, a exemplo do garoto Gustavo, a quem foi dedicada a obra. Na sequência, abordam-se outras situações, envolvendo adultos com doenças diferentes, que fazem uso do THC, outra substância extraída da Cannabis, na forma fumada para, depois, ampliar a discussão sobre a legalização da erva em geral, ao cobrir a Marcha da Maconha. Neste momento, Ilegal perde um pouco a mão, não pela clara defesa a que se propõe, mas porque a edição e a trilha sonora, entre outros elementos, dão o tom e a estampa de propaganda política a este trecho.
 
Além disso, essa abertura quebra o ritmo da narrativa, que logo em seguida volta a se centrar na luta de Katiele e outras mães, justamente quando a discussão aborda as altas esferas, como os políticos. A sorte é que o documentário consegue ser mordaz o suficiente para recuperar sua cadência ao mostrar que, apesar das boas intenções dos parlamentares, os deputados estão mais interessados na pauta e aprovação de seus próprios projetos do que necessariamente ajudar aquelas mães que andam esperançosas pelo Congresso.
 
Da mesma maneira, Araújo e Erichsen fazem um interessante relato da burocracia no país, desde a abertura, com a mãe de Anny tentando e não conseguindo uma resposta efetiva da Anvisa pelo telefone, até o clímax com a reunião na agência pública que regulamenta a liberação dos medicamentos.
 
No mais, Ilegal é um documentário que assume claramente sua posição a favor da legalização da maconha medicinal, seja com o Canabidiol, o THC ou o cigarro da erva. Então, o público não deve esperar muitos contra-argumentos a essa opinião. Ao menos, registra-se o breve depoimento de dois cientistas estrangeiros que vieram ao Brasil para participar de um congresso sobre o tema na Cinemateca Brasileira e alertam sobre a falta de resultados comprovativos relativos à eficácia do Canabidiol em casos de epilepsia e outras doenças.
 
Entretanto, se o espectador irá tomar partido junto à equipe do filme ou se contrapor a ela não é o mais importante. O principal feito da obra é levá-lo a questionar suas convicções prévias e incitar o debate sobre o tema, até em variáveis que não foram abordadas no longa.

Nayara Reynaud


Trailer


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança