Os Boxtrolls

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Sinopse

Quando desaparece um bebê, acaba o sossego do lugarejo de Pontequeijo - especialmente depois que os Boxtrolls, criaturas que habitam seus subterrâneos, são acusados do crime pelo exterminador Arquibaldo Surrupião, deflagrando uma perseguição contra eles.


Nota Cineweb

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Crtica Cineweb

30/09/2014

Cinco anos após o seu belo e significativo debut com Coraline e o Mundo Secreto (2009) e o lançamento do sua segunda produção, o ótimo – mas um tanto relegado – ParaNorman (2012), a Laika já imprimiu a sua marca, mesmo em pouco tempo de existência. E o estilo do estúdio de Portland (EUA) não se restringe apenas à estampa artesanal derivada da escolha pelo stop motion frente a técnicas mais modernas de animação, mas também é resultado das temáticas abordadas, sempre mais sombrias e misteriosas do que o habitual em filmes infantis.
 
Esses traços reaparecem no novo trabalho da Laika, Os Boxtrolls (2014); porém, de forma mais diluída. O longa de Graham Annable – com um extenso histórico na área de videogames – e Anthony Stacchi – co-diretor de O Bicho Vai Pegar (2006) – mistura stop motion com desenho à mão e computação gráfica. E, de fato, é a animação mais comercial do estúdio, já que seu conteúdo fantástico se aproxima mais do público infantil do que nas outras empreitadas mais ameaçadoras.
 
O roteiro de Irena Brignull e Adam Pava transpõe à tela parte do universo escrito por Alan Snow nas mais de 500 páginas do livro A Gente É Monstro! (Here Be Monsters!). O espectador logo é apresentado ao trágico sumiço do bebê Trubshaw, que muda a história da cidade com ares vitorianos de Pontequeijo. Isso porque os Boxtrolls, pequenas criaturas envoltas por caixas que habitam o subterrâneo do lugarejo, são incriminados pelo sequestro da criança e perseguidos pelo terrível exterminador Arquibaldo Surrupião (voz de Ben Kingsley na versão original, infelizmente não disponível no lançamento brasileiro).
 
Ele impõe um toque de recolher à população durante a noite, momento em que os estranhos seres saem pelas ruas de paralelepípedos do local, remexendo lixos em busca de algo de interessante para suas inventivas criações. Assim, não tarda para que o público conheça melhor os Boxtrolls, que mais levam sustos do que os provocam nos outros, além de terem um quê de Minions, com direito à língua própria e fofura quase similar. Basta acompanhar o carinho com o qual eles, especialmente Peixe, cuidam do garoto chamado Ovo.
 
No entanto, quando a filha do Lorde Roquefort, a jovem Winnie, descobre que um menino humano vive com os Boxtrolls, tão logo se revela os desejos por trás da investida de Surrupião: tudo o que ele quer é trocar o seu chapéu vermelho por um branco, igual ao do Lorde e, assim, sentar-se à mesa com os nobres para degustar queijo, mesmo que isso lhe faça mal.
 
É evidente que a trama não é um dos pontos fortes do filme, mas a história incita várias discussões sérias que, junto ao bom entretenimento, a tornam interessante para o público adulto também – praticamente, uma assinatura da Laika. Uma delas surge da própria criação do Ovo pelos Boxtrolls, na qual é implícita a mensagem de que uma família nem sempre obedece àquela formação clássica “mamãe + papai”, mas nem por isso será pior do que a tradicional, algo que até foi enfatizado no primeiro teaser da produção.
 
A questão do preconceito é igualmente marcante, assim como em ParaNorman, que também trazia um microcosmo – que, obviamente, representa toda uma sociedade – onde o pensamento predominante é de que “se não conheço, repudio, e assim transformo meu medo em repulsa”. Mas se, no trabalho anterior do estúdio, a intolerância era personificada no protagonista e na jovem bruxa do passado, agora ela atinge toda uma espécie, aqui símbolo de classes, gêneros, raças e etnias sistematicamente vítimas de ações preconceituosas. Por isso, não é descabida uma possível interpretação de que Os Boxtrolls, com seu impecável design de produção – especialmente, em 3D – que remete ao Expressionismo Alemão, faria da fictícia cidade europeia de Pontequeijo uma representação de todo o continente no início do século XX, ao mostrar o genocídio das pequenas criaturas do título, executado por Surrupião e seus capangas.
 
Falando na equipe do vilão, fora o malvado Sr.  Rude, a dupla formada pelo Sr. Picles e o Sr. Truta faz uma série de indagações existenciais e filosóficas durante a animação, especialmente sobre o bem e o mal a partir de suas próprias ações e, consequentemente, acerca da estrutura da trama em si. A metalinguagem vai além na cena exibida durante os créditos, que não apenas permite avaliar a dimensão do trabalho que é fazer um stop motion e faz homenagem aos profissionais da produção, mas menciona outro debate, até religioso, sobre o livre arbítrio.
 
No mais, o filme deixa clara à plateia a ideia de que é possível se superar, transformando sua própria natureza, mas que há condições de fazer algo mais: mudar o mundo à sua volta para fazê-lo se adaptar à sua realidade.
 
Indicado ao Oscar de melhor animação. 

Nayara Reynaud


Trailer


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