O Doador de Memórias

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Sinopse

Num mundo onde não há aparentemente nada de errado, jovem é escolhido para ser o guardião das memórias. Quando o ancião responsável por isso começa a lhe passar conhecimentos, o rapaz percebe que seu mundo pode estar repleto de erros. Então se rebela.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

08/09/2014

O romance de Lois Lowry no qual O Doador de Memórias é baseado pode ser mais antigo que séries como Jogos Vorazes e Divergente, mas sua adaptação tardia – levou mais de 20 anos para ser feita – faz parecer que é mera cópia de outros, ao falar de uma sociedade distópica do ponto de vista do protagonista adolescente.


A distopia é um gênero que serve muito bem para a literatura infanto-juvenil, afinal, pode existir algo mais próximo de uma distopia pessoal do que essa época da vida, quando os hormônios entram em ebulição, a gente não compreende direito o mundo, o mundo não nos compreende, e tudo parece fora do lugar, de tal forma que jamais entre no prumo novamente. Num plano maior, no entanto, essa vertente pode fazer conjecturas sobre o nosso presente – afinal , uma ficção científica, por mais futurista e mirabolante (o que nem é o caso aqui) que seja, está falando de nosso aqui e agora.


No filme dirigido pelo australiano Phillip Noyce (O Colecionador de Ossos), uma sociedade, à primeira vista utópica, se revela uma distopia à lá Jogos Vorazes e Divergente – infelizmente, o longa está mais próximo do segundo do que do primeiro. Os três trazem alguns elementos estruturais parecidos: num mundo deformado, jovens são, de um modo ou de outro, escolhidos numa cerimônia para o sacrifício e (coincidentemente) o protagonista não apenas é o eleito, como se rebela contra o sistema.


Em O Doador de Memórias, aos 16 anos, os jovens concluem a escola, e recebem uma profissão diante de todos os membros da comunidade. Ao protagonista, Jonas (Brenton Thwaites, de Malévola), cabe a posição de doador de memórias. A questão nessa sociedade do futuro, que permitiu a formação dessa falsa utopia, é a ausência de lembranças, mas uma pessoa precisa guardar todas as memórias do mundo. Aqui, o papel é feito por um ancião (Jeff Bridges), que precisa passar seus preciosos mementos ao garoto. A transferência se dá como uma conexão, quando se dão as mãos.


É claro que ao descobrir sobre o passado, Jonas se dá conta do mundo desbotado em que vive. Para traduzir isso em imagem o diretor opta por contrastar um mundo do presente dos personagens em cores pálidas, quase um preto e branco, em contraste do colorido vibrante do passado, das lembranças. É uma das poucas boas sacadas do filme que, em si, não parece ter muitas ambições – ou se as tem, elas foram enterradas muito bem.


Um dos preços pela suposta perfeição do presente é a supressão da linguagem. As palavras – assim como as emoções, alguns animais e plantas – deixam de existir, uma vez que aquilo que representam não existe mais. No caso de tomar um elefante de pelúcia por hipopótamo – como acontece aqui – não é lá grande coisa, mas a medida em que sentimentos complexos são extintos e seus nomes também, a problemática toda se torna preocupante. E quando Jonas usa palavras como amor e família, sua mãe (Katie Holmes), manda-o reformular a frase. Aliás, essa parece ser a única função da personagem cuja interpretação da atriz faz justiça à nulidade da figura.


Essa sociedade em preto-e-branco é coordenada por uma anciã, interpretada por Meryl Streep, que parece ter aceitado o papel apenas pela diversão. Já Bridges que, por anos, deteve os direitos do romance, e cogitou adaptar com seu papel (Lloyd Bridges, morto em 1998), faz o que pode, mas os personagens (isso não acontece apenas como ele) carecem de nuances, de densidade, de motivações mais profundas do que aquelas do roteiro de Michael Mitnick e  Robert B. Weide.


Como todo bom filme pra adolescentes que se preze, esse vem com uma lição ao final, e, no caso, envolve não apenas a valorização das memórias, das perdas e das dores (pois é por meio delas que crescemos), mas também como o cinema pode ser limitado quando quer tratar de uma questão se repetindo, e cada vez com menos sagacidade.

Alysson Oliveira


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