De Menor

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Sinopse

Jovem advogada trabalha com casos envolvendo menores infratores. Seu dia a dia se divide entre o trabalho e os cuidados de seu irmão adolescente, até que este lhe impõe um dilema.


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Crítica Cineweb

01/09/2014

Uma série de dúvidas e inseguranças marca a adolescência e a torna um período difícil para quem a vive. O fato de ser muito velho para ser criança e muito jovem para ser considerado adulto se torna uma questão existencial que, além de afligir o próprio adolescente, também gera incertezas a quem está ao seu redor, especialmente na maneira como tratá-lo. Isso se torna ainda mais visível quando o jovem faz algo de errado e/ou ilícito: todos perguntam “como devemos puni-lo e fazer com que aprenda a lição?”.
 
Esse questionamento permanece durante toda a exibição – e continua depois – do longa De Menor (2013), ganhador do prêmio de melhor filme no Festival do Rio do ano passado e que, após circular muito bem em outros festivais, estreia comercialmente nesta quinta. Trata-se do primeiro trabalho em direção de longas de Caru Alves de Souza, filha de Tata Amaral, que demonstra ter herdado o talento da mãe, mas se afasta de qualquer possibilidade de ficar sob a sua sombra ao apresentar uma obra tão contundente, logo de cara. A diretora, que acredita que “o cinema tem de enfrentar questões mais urgentes”, usou a experiência pessoal da sua prima na Defensoria Pública, em Santos, para poder falar de um tema que a instigava: a situação de abandono de crianças e adolescentes, seja no âmbito familiar ou na esfera governamental, e as consequências disto.
 
Para tanto, a história acompanha, pacientemente, Helena (Rita Batata), apresentando-a aos poucos para o público. No início, o espectador pode até achar que a personagem é a “de menor” do título, devida a aparente jovialidade de sua intérprete. Também é provável que fique que em dúvida sobre a relação dela com o adolescente Caio (Giovanni Gallo), porque só depois de sugestões de algum envolvimento incestuoso entre eles é que se revela a natureza de tamanho envolvimento e apego de um ao outro, pois os dois ficaram órfãos.
 
Tudo isso se descobre nas sutilezas do roteiro de Caru e Fabio Meira, onde tudo ocorre de forma gradual. Diferente da mania atual dos realizadores de regurgitar seu conteúdo na plateia, dando tudo mastigadinho a ela – ou, no outro extremo, desprezá-la totalmente –, este filme trata o espectador com inteligência. Da mesma maneira, é com calma que o texto entrega o fato de Helena ser uma defensora pública atuante no Juizado de Menores de Santos, onde tenta propor soluções melhores para os jovens que lá adentram, apesar das condições adversas.
 
Por isso, ao pensar sobre a indefinição de órgãos oficiais sobre a idade em que ocorre o fim da adolescência, não é difícil compreender que a protagonista, embora não seja menor de idade, ainda tem as mesmas inseguranças de uma adolescente. A maturidade que mostra em sua vida profissional é esvaziada quando ela se encontra em casa.
 
O local, que está à venda, se transformou em um cenário transitório que demonstra o quanto Helena e Caio só têm um ao outro. O problema é que ela ainda não sabe como deixar de lado o comportamento de irmã para adotar a postura de responsável por ele. A sensação de que a moça não dará conta disso é latente e a fotografia de Jacob Solitrenick, às vezes sufocante com seus primeiros planos, contribui para isto. Sua câmera segue a protagonista em longos planos-sequência, respeitando o tempo psicológico da personagem, para contar esta história sob seu ponto de vista.
 
A trama caminha para um óbvio cruzamento dos dois mundos em que Helena convive. Mesmo assim, Caru não trabalha isso de forma melodramática – até a trilha sonora de Tatá Aeroplano e Junior Boca é introduzida na medida certa; prefere mostrar o desenrolar dos acontecimentos e de emoções crescendo até o choro, por exemplo, em vez de filmar as lágrimas vertendo do rosto. A escolha ajudou Rita Batata, de Não Por Acaso (2007), a fazer uma atuação notável, digna do prêmio de melhor atriz que recebeu no Festival do Rio.
 
Os ensaios foram fundamentais na intimidade que Rita e Giovanni, da série Pedro e Bianca (2012-2014) conseguiram criar em cena, dando veracidade à relação de Helena e Caio. Embora se ressinta de um maior desenvolvimento dele enquanto personagem, é preciso frisar que essa falta de conhecimento das intenções e motivações do garoto existe porque ele é apresentado sob o olhar dela, que parece não conhecer, ou melhor, não quer enxergar tão profundamente o irmão.
 
Os dois meses de preparação do elenco também serviram para que os atores conhecessem a fonte de inspiração do filme. Eles assistiram a uma série de audiências em Santos, entrando em contato com o ambiente e as pessoas que habitam aquele lugar, como o defensor Thiago Souza Santos. Rui Ricardo Diaz, que interpreta o promotor Paulo, diz que a experiência serviu para conhecer, de fato, a realidade do promotor de justiça no Brasil, bem diferente daquela vista nos filmes hollywoodianos. Por sua vez, Caco Ciocler  conheceu o juiz Evandro Renato Pereira, da Vara da Infância e Juventude santista, cujo comportamento paternal, entre a imposição de respeito e a informalidade das conversas, serviu de inspiração para o seu papel, como o magistrado Carlos.
 
A pesquisa realizada por Caru sobre os casos de infração entre os menores mostrou que eles são muito parecidos entre si e resultaram nos três episódios mostrados ao longo da película, encenados por jovens da própria cidade litorânea paulista, selecionados em um workshop local. E aí se encontra um dos êxitos do filme, ao tratar de um tema tão pertinente e atual, já que, cada vez que é registrada uma ocorrência mais violenta, a discussão da redução da menoridade penal volta à tona. O filme não cita o tema em nenhum momento, apenas suscita indiretamente a discussão, sem imposições, mesmo que a diretora e o elenco tenham se declarado contra a medida, em entrevista à imprensa.
 
Há quem questione o desfecho do longa, mas ele abre o horizonte para o espectador se autoquestionar. Ao se debruçar sobre o dilema pessoal da protagonista, “De Menor” propõe que este dilema se instale na mente do espectador, pois não cabe à obra trazer as respostar, mas provocar no público a vontade de buscá-las.

Nayara Reynaud


Trailer


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