O homem das multidões

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Sinopse

Juvenal é condutor de metrô em Belo Horizonte. Sua supervisora, Margô, é uma das poucas pessoas com quem ele mantém algum contato. Ela também é solitária, passando horas todas as noites diante do computador.


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Crítica Cineweb

30/07/2014

Baseado em um conto homônimo de Edgar Allan Poe, o filme O Homem das Multidões consolida uma parceria entre dois diretores de estilos distintos dentro do cinema brasileiro. De um lado, está o mineiro Cao Guimarães, com um percurso ligado à videoarte e filmes ensaísticos, como Acidente (07), Andarilho (07) e A alma do osso (04). Do outro, o pernambucano Marcelo Gomes, traçando seu caminho sobre filmes calcados na vivência de seus personagens, caso de Cinema, Aspirinas e Urubus (05) e Era uma vez eu, Verônica (12), sem contar outra parceria, com o cearense Karim Ainouz, no poético Viajo porque preciso, volto porque te amo (09).
 
Os dois estilos se complementam à perfeição em O Homem das Multidões, que teve sua première mundial na seção Panorama do Festival de Berlim, iniciando ali a circulação por vários festivais, como Guadalajara, Toulouse e Rio (dos quais saiu premiado). Construindo sua narrativa sobre silêncios e imagens, bem mais do que sobre diálogos, o filme arma um enredo em que a solidão é protagonista, a tônica da vida de dois personagens: o condutor de metrô Juvenal (Paulo André, ator do grupo teatral mineiro Galpão) e sua supervisora, Margô (Sílvia Lourenço, de Contra Todos).
 
Juvenal mora sozinho num pequeno apartamento em Belo Horizonte, num ambiente asséptico como um laboratório: poucos móveis, sem enfeites, uma geladeira quase vazia. Fora do trabalho, ele se debate com a insônia, passando as noites olhando a cidade do alto pela varanda, ouvindo rádio e fazendo faxina. Nenhum amigo, nenhuma namorada, nem mesmo um computador pessoal. Na maior parte do tempo, ele fala mesmo sozinho. Eventualmente, procura a companhia de uma prostituta.
 
No trabalho, Margô é praticamente sua única amiga. Embora ela seja aparentemente mais falante e sociável, ambos são solitários, cada um à sua maneira. As relações de Margô são praticamente todas virtuais, exceto o pai (Jean-Claude Bernardet), com quem ela ainda mora. Até o noivo ela conheceu num chat na internet. Seus “animais de estimação” são peixes digitais, que ela “alimenta” na tela do computador.
Telas de computador, linhas de metrô e seus trens, ruas, prédios e carros formam o cenário urbano deste filme, que usa uma janela atípica, quadrada ao invés da convencional, alongada, reproduzindo, na descrição do diretor Marcelo Gomes “uma mistura de estéticas do Instagram e de uma polaroide”. O formato causa uma certa estranheza inicial ao espectador, mas também concentra o foco do olhar no cotidiano miúdo destes poucos personagens.
 
No final, O Homem das Multidões é um filme de sensações, que anseia por criar uma cumplicidade com o público a partir de uma esfera dramatúrgica bem minimalista. A saber: Margô vai se casar e quer que Juvenal seja o padrinho; ele hesita. Há muito de não-dito neste afeto entre os dois, que se expressa por olhares, por falas aparentemente sem muita força, mas que mantém aceso um compartilhamento de sensações e sentimentos. A tecnologia muda mais do que a natureza humana, é o que o filme parece dizer.

Neusa Barbosa


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