Amar, Beber e Cantar

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Sinopse

O médico Colin conta à sua mulher que um amigo comum, George, deve morrer em breve. A doença dele gera uma série de mudanças no seu círculo próximo.


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Crítica Cineweb

18/07/2014

Amar, beber e cantar, último filme do cineasta Alain Resnais, morto em março passado, parece dar sequência ao projeto de cinema que ele adotou nos últimos anos – um realismo que rompe com a realidade, uma fantasia do cotidiano, brincando não apenas com o conteúdo, mas especialmente com a forma.  Mais conhecido por seus trabalhos bastante densos, como Hiroshima, Meu Amor e O ano passado em Marienbad, nos últimos anos o diretor começou a fazer filmes mais leves e despojados – o que não se deve confundir com superficiais. Apenas parece que, com a idade, Resnais se tornara mais juvenil.
 
Pela terceira vez, o cineasta adapta uma peça do inglês Alan Ayckbourn (as outras duas são Smoking/No Smoking e Medos privados em lugares públicos), e ao manter a estrutura teatral, busca outras formas de a retratar no cinema. Um outro detalhe: os personagens ensaiam a montagem amadora de uma peça, que trata-se de “Relatively Speaking”, uma outra obra de sucesso do dramaturgo. Nesse filme, porém, o diferencial está especialmente nos cenários, minimalistas, nos quais paredes são substituídas por papéis. O diretor também trabalha com o jogo de cena; a encenação que nos é sempre lembrada pela cenografia nada realista. No Festival de Berlim, em fevereiro passado, o diretor e seu longa receberam o prêmio da crítica internacional e o Alfred Bauer, outorgado a filmes que “abrem novas perspectivas para a arte cinematográfica”.
 
Amar, beber e cantar é sobre uma peça dentro do filme – ensaiada por um grupo de amigos – mas também sobre um tal de George Riley (sobre quem ouvimos muito, mas a quem nunca vemos). Ele está doente e tem no máximo 6 meses de vida. O filme começa com o médico Colin (Hippolyte Girardot) deixando a notícia escapar para sua mulher, a espevitada Kathryn (Sabine Azéma), enquanto se preparam para ir ao ensaio da peça, na qual vão atuar sob a direção de Peggy Parker (outra personagem muito mencionada e nunca vista).
 
A notícia logo se espalha, e o casal Tamara (Caroline Sihol) e Jack (Michel Vuillermoz) – avisados por Kathryn – se desespera com a iminente morte do amigo, passando a demonizar Monica (Sandrine Kiberlain), ex-mulher de George, que agora vive com Simeon (André Dussollier).
 
A trama transita entre lembranças do grupo de personagens sobre George, planos para o futuro (com ou sem ele) e o pré e pós-ensaio da peça na qual alguma dessas pessoas atuarão. É, enfim, um divagação sobre a vida e seus caminhos. Ao situar a trama no interior da Inglaterra, Ayckbourn e Resnais lidam com uma tradição antiga da literatura inglesa, estudada e nomeada pelo crítico Raymond Williams como “Comunidades Cognoscíveis”. Ou seja, um microcosmo autossuficiente, que em seus relacionamentos comunitários encerram a verdade sobre o mundo que os cercam, além de seus limites geográficos. É nas crises, obviamente, que o dramaturgo e o cineasta encontram o material mais produtivo para Amar, beber e cantar. A doença e George e sua morte num horizonte próximo são os catalisadores para as discussões entre o pequeno grupo e possíveis mudanças em suas vidas e relacionamentos.
 
Se tudo isso está no conteúdo, a forma denuncia acima de tudo como vivemos na era das ilusões, e que estas são estranhamente necessárias. A ausência de paredes nos cenários é a utopia dos personagens que vivem sob as regras de uma sociedade tão repressora quanto a inglesa.
 
Amar, beber e cantar é uma celebração da vida – que é a toda hora lembrada pela condição de George – e, como é comum na obra do diretor, o filme é de uma sutileza assustadora. Parece apenas uma porção de gente falando (quase um teatro filmado) – e não deixa de ser - mas é uma porção de gente falando sobre as verdades e questionamentos da vida e da morte. É curioso que Resnais deixe esse longa como seu testamento – ao mesmo tempo, é providencial, pois, não poderia haver obra melhor para sintetizar suas inquietações artísticas. 

Alysson Oliveira


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