Trampolim do forte

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Déo, Felizardo e Fuleirinho são garotos pobres, moradores de Salvador, que se refugiam em torno do Forte de Santa Maria , na praia de Porto da Barra, criando laços de amizade, fugindo de problemas familiares, resistindo ao assédio do crime e de um pedófilo que está à solta.


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Crítica Cineweb

02/07/2014

Uma corrida desenfreada no meio das pessoas e veículos de um grande centro urbano, que ganha aceleração rumo ao “abismo” de um trampolim, para um salto no desconhecido, pois mesmo o mergulho em um mar tão familiar pode guardar surpresas. É assim com intensa força imagética, cheia de simbologias, que começa Trampolim do Forte (2010), coprodução Brasil-Alemanha que foi exibida no Festival do Rio de 2010 e rodou vários festivais até entrar aos poucos no circuito comercial do país.
 
O filme de João Rodrigo Mattos é uma ode à coragem da infância, especialmente daqueles que nesta fase têm de enfrentar medos não tão infantis, que ameaçam a inocência e tudo que lhes é de direito. Isso não apenas por causa do seu roteiro em si, mas porque a obra possui um espírito autobiográfico aparente, sendo muito fácil intuir que o diretor realmente pulou nos trampolins do Forte de Santa Maria, na famosa praia do Porto da Barra, em Salvador-BA, e resgatou da memória os tipos que conheceu por lá enquanto criança.
 
No entanto, o jovem cineasta peca pela ânsia de abarcar vários logo em seu primeiro longa-metragem de ficção – antes, tinha realizado o documentário Agostinho da Silva – Um Pensamento Vivo (2006), sobre seu avô, um notório filósofo e escritor português. Entre a profusão de questões que a obra abrange estão: as crianças em situação de rua; drogas; menores na criminalidade; prostituição, especialmente a infantil; tráfico humano; crescimento de novas igrejas nas mãos de lideranças duvidosas; pedofilia; e corrupção policial.
 
Vários filmes poderiam ser feitos a partir de tantos assuntos, com a certeza de que cada um deles teria a chance de aprofundamento, já que em Trampolim..., a maioria dessas subtramas são desperdiçadas. Da mesma maneira, há personagens demais, às vezes até a entrada de alguns para despistar o público sobre a identidade do molestador conhecido pela alcunha de “Tadeu, o rei das criancinhas” – parece que houve mesmo um “verdadeiro Tadeu”, um pedófilo que aterrorizou Salvador na década de 1990 e serviu de inspiração para Mattos criar o personagem. Mas esse excesso de figuras dramáticas termina por desviar o foco dos protagonistas, os amigos Déo (Lúcio Lima) e Felizardo (Adaílson Santos).
 
Os dois pré-adolescentes têm de enfrentar grandes problemas apesar da pouca idade. O primeiro resolve se abrigar no Forte, após sua mãe (Cláudia di Moura) sair de casa e abandoná-lo com o padrasto. O segundo, cujo apelido “Feliz” destoa de seu humor, está chateado pelo fato da mãe dele (Marcélia Cartaxo) dar quase todo o dinheiro que consegue vendendo picolés para a Igreja da Segunda Misericórdia, do reverendo Magalhães (Luís Miranda). A dupla ainda tem que resistir à tentação de seguir o mesmo caminho de pequenos furtos de Fuleirinho (Everton Costa), enquanto temem serem pegos pelo terrível Tadeu.
 
O ímpeto e o tom natural que os atores mirins imprimem, sobretudo quando interpretam as ações cotidianas de seus personagens, é um forte trunfo do filme. Chamam atenção, especialmente, Lúcio Lima dando conta de seu difícil protagonista, Everton Costa garantindo a irreverência e o drama esperados de seu trombadinha, e Laís Gomes como a amiga de Déo e Feliz, entregue ainda jovem à vida de prostituição. O trio desperta até mais interesse durante o longa do que atores conhecidos, a exemplo de Luís Miranda, Zéu Britto e Marcélia Cartaxo, até porque a estes estão mais reservadas as cenas com diálogos, outro ponto fraco da produção. O texto de Mattos é muitas vezes esquemático, criando situações forçadas e dissipando a naturalidade das crianças, e simplista ao final, quando tenta amarrar as pontas de todas as subtramas jogadas na tela.
 
Mesmo irregular, a estreia ficcional de João Rodrigo mostra seu entusiasmo em apresentar ao espectador esse microcosmo soteropolitano atemporal. A história parece se localizar entre os últimos 25 anos, tendo um ar, ao mesmo tempo, noventista e contemporâneo, com figurinos e elementos cenográficos que poderiam estar naquela década, no início dos anos 2000 ou nos dias atuais. As roupas casuais se assemelham às daquele período, contrastando com os biquínis mais recentes na praia, assim como os carros velhos, difíceis de ver hoje em Salvador.
 
Porém, mais que essa possível transição temporal, Trampolim do Forte consegue, ao resgatar o olhar caro de Jorge Amado àqueles pequenos abandonados à margem da sociedade, em Capitães de Areia (1937), propor uma mudança espacial ao público, que logo percebe que tal situação está bem na sua esquina, em muitas cidades do país.

Nayara Reynaud


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