Um Dia Muito Especial

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Crítica Cineweb

13/01/2003

"Os meus filmes são como uma peneira - cheios de buracos. Nunca aspirei fazer 'obras definitivas', mas sempre tentei levar o público a uma reflexão". Pode-se não concordar com a primeira frase, mas não há como negar que Ettore Scola sempre faz com que a platéia reflita sobre cada um de seus filmes, por menor que seja.

Alguns causam polêmica, como Feios, Sujos e Malvados - às vezes considerado indigesto -, mas a maior parte de sua obra balança o mais duro dos corações. Exemplo maior deste efeito é Um Dia Muito Especial, com as contidas e sensíveis interpretações de Marcello Mastroianni - indicado ao Oscar de melhor ator - e Sophia Loren.

Scola usa como pano de fundo o dia da visita de Adolf Hitler a Roma em maio de 1938 e o efeito sobre a população italiana para mostrar a opressão sofrida por um radialista homossexual e uma dona de casa, que moram num mesmo conjunto residencial. A repressão oficial do nazismo ao homossexualismo encontra ressonância na tirania exercida por maridos machistas sobre as, aparentemente, conformadas mulheres. O contraste entre as cenas de um documentário, onde se vê toda a pompa das autoridades italianas para receber o Führer, com a tomada - quase sem cortes - da mulher acordando a família, e tentando dar uma certa ordem no caos matinal, é primoroso.

Os únicos moradores do conjunto que não foram para a parada militar, Gabriele (Marcello Mastroianni) e Antonietta (Sophia Loren), se encontram por acidente. A imensa solidão destes dois seres marginalizados faz com que busquem uma desesperada companhia para preencher aquele dia - especial em suas vidas. A única testemunha deste encontro é a zeladora dos edifícios que ouve, em volume altíssimo, a transmissão radiofônica do evento. Uma trilha sonora que não os deixa nunca esquecer quem realmente são e o papel que cada um pode cumprir naquele momento específico da História.

Gabriele deixa de cometer suicídio quando é interrompido por Antonietta, que bate à sua porta em busca do pássaro da família que fugiu da gaiola. Um acontecimento prosaico como este deixará marcas profundas em ambos, principalmente naquela mulher simples, que imaginava ser seu destino apenas o papel de mãe e reprodutora. Ao longo do dia, ela vai descobrindo que ao ser massacrada por uma vida miserável, deixou muitos sonhos para trás. Ao encontrar Gabriele, antevê uma possibilidade de resgatar não apenas seus sonhos, como também a auto-estima perdida e, principalmente, sua sensualidade e sexualidade esquecidas num canto qualquer.

Já Gabriele quer apenas alguém para quem possa contar seus segredos mais íntimos e conseguir, quem sabe, diminuir o desconforto de se sentir um marginalizado social. São duas almas em conflito que - num único dia - conseguem aplacar seus fantasmas e encarar com serenidade seus destinos.

Neste filme, Ettore Scola consegue através de poucos personagens, em interpretações milimetricamente impecáveis, mostrar toda a sua capacidade na direção de atores e justificar a razão pela qual é considerado um dos maiores cineastas, ainda vivo, da história do cinema. Com justiça, ganhou o Globo de Ouro e o César de melhor filme estrangeiro em 1978.

Cineweb-2/8/2002

Ana Vidotti


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