Mapas Para as Estrelas

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Sinopse

Uma sátira ao sistema de Hollywood e seus egos inflados, que não medem esforços para prolongar seus 15 minutos de fama. Ao centro, uma atriz já madura em busca de novos trabalhos, um guru da autoajuda e um chofer que tenta um lugar ao sol como ator.


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Crítica Cineweb

16/03/2015

Na visão de David Cronenberg, Hollywood deve ter mais círculos de danação do que o inferno de Dante.  E o fogo, tanto real quanto metafórico, que aparece em seu Mapas para as Estrelas, é o que consome os personagens do filme, que dialoga com clássicos como Crepúsculo dos Deuses e o romance O Dia do Gafanhoto, de Nathaniel West (também adaptado para o cinema em 1975, por John Schlesinger).
 
Hollywood é uma cidade atormentada, vivendo sob um mesmo código de ética e moral, onde seus habitantes são ávidos pelos holofotes – o dinheiro é uma consequência – e vale tudo, no amor, na guerra e na fama. Havana Segrand (Julianne Moore, premiada em Cannes 2014 por esse filme) é uma atriz assombrada pelo fantasma da mãe, uma atriz mais famosa do que ela, morta na juventude num incêndio.
 
O fogo, como dito, é uma imagem que permeia todo o filme – cujo roteiro é assinado pelo romancista Bruce Wagner, para quem Hollywood não é novidade. Logo se apresenta a misteriosa Agatha (Mia Wasikowska), cujas cicatrizes na pele prenunciam outras marcas emocionais mais profundas. Ao chegar à cidade, logo pega uma limusine, cujo chofer é Jerome, interpretado por Robert Pattinson, que em outro filme de Cronenberg, Cosmópolis, não saía de outra, mas não como motorista, e sim proprietário. Ela diz ter conhecido a atriz Carrie Fisher pela internet, e essa logo lhe arruma um emprego como assistente da perturbada Havana.
 
O garoto Benjie Weiss (Evan Bird) é um prodígio do cinema, capaz de levar milhares para ver seus filmes, mas não consegue se livrar da assombração de uma fã morta. Seu pai, Stafford Weiss (John Cusack), é um guru da autoajuda, cujos clientes são a elite de Hollywood, capaz de pagar uma fortuna por uma terapia que envolve massagem e psicologismos – Havana está na sua lista de “pacientes”. A mãe do garoto é Cristina (Olivia Williams), uma mulher aterrorizada por um segredo do passado.
 
As cenas de Mapas Para as Estrelas acontecem em almoços de negócios, testes de elenco, encontros entre amigos famosos – as pessoas parecem pueris e falsas umas com as outras, sempre guiadas por interesses bem maiores do que apenas amizade. Cronenberg e Wagner são de um cinismo e humor negro que faz parecer serem a única forma de abordar essa comunidade fechada que opera por leis próprias. E, realmente, não parece haver outro jeito.
 
Desde Marcas da Violência (2005), Cronenberg mostra-se interessado em expor as fissuras da matéria que une o discurso burguês. Nesse filme, ele questiona a família: até que ponto uma mulher estaria ao lado do seu marido, quando seu passado obscuro vem à tona? Em Senhores do Crime (2007), o diretor investiga o submundo do crime e traz o outro lado da relação familiar – aqui, aquela que constrói impérios em cima de cadáveres. Em Um Método Perigoso (2011), sobre a relação entre Freud e Jung, o cineasta canadense questiona o discurso da psicanálise, da possibilidade de explicação do sujeito, de como o que pensamos não é bem nós que pensamos, mas somos levados a crer que sim.
 
Dessa fase, Cosmópolis (2012), baseado num romance de Don DeLillo, é o mais ácido ao investigar a narrativa criada pelo capital. É um apocalipse materializado em meio ao caos, enquanto o investidor (Pattinson), apenas observa tudo de dentro da sua bolha (sua limusine branca) – é um filme que reflete muito sobre a crise econômica de 2008 e suas consequências, como o movimento Occupy.
 
Mapas Para as Estrelas é, enfim, o passo mais lógico nessa sequência, quando, finalmente, o diretor sinaliza que a lógica do capital é a cultura – e o cinema uma arma poderosa de dominação. O cinema também cria e destrói seus heróis – Havana “passou da idade” e não consegue bons papeis, não consegue ser vista, daqui a pouco tempo deixará de ser famosa, eis aí a causa do seu desespero.

Nesse pesadelo de e sobre Hollywood ninguém se salva, ninguém sai impune, ninguém é bom – todos, ao seu modo, são maus, todos são humanos. Agatha talvez seja a menos pior, mas nem por isso, como se revela, a menos perigosa. Todos ali são capital humano à espera de produzir lucro para os magnatas do cinema – desses, pouco sabemos. São os operários-padrão na expectativa do momento de entrar em cena e serem ludibriados com a fama e os salários milionários, sem se dar conta de que isso é uma parcela mínima daquilo que os patrões estão ganhando. A competição por um trabalho é acirrada e proporcional à profusão de cadáveres no filme, todos encontrando seu destino de forma bem cruel. Cronenberg sabe que no inferno não há nenhum anjo. 

Alysson Oliveira


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