O cinema de Mizoguchi

O cinema de Mizoguchi

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Caixa reúne cinco dos mais prestigiados dramas do diretor japonês Kenji Mizoguchi: "As irmãs de Gion (36), "Senhorita Oyu" (51), "Oharu - vida de uma cortesã" (52), "Contos da lua vaga" (53) e "Os amantes crucificados" (54). Mais de uma hora de extras, com entrevistas e trailers.


Extras

Áudio dolby 2.0; legendas em português; formato de tela fullscreen 1.33:1. Extras: trailers, entrevistas com Masahiro Shinoda, Tokuzo Tanaka e Kazuo Miyagawa; análise de "Contos da lua vaga" pelo crítico Tony Rayns; depoimento do crítico Sergio Alpendre.


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Crítica Cineweb

14/03/2014

Unir sutileza e veemência num estilo marcado por, como já se disse, “um olhar de pintor e alma de poeta”, foi a busca de Kenji Mizoguchi (1898-1956), com toda a justiça lembrado como um dos maiores mestres da história do cinema, não só do japonês. Inclusive pela maestria com que conjugava sofisticação e originalidade no planejamento dos movimentos de câmera, uma de suas marcas registradas, contrastando com a câmera fixa e baixa de outro incontestável mestre japonês, Yasujiro Ozu, o poeta da intimidade.
 
Reunindo cinco dos títulos mais celebrados de Mizoguchi, em versões restauradas, a caixa da Versátil é uma espécie de síntese de uma obra que ultrapassou os 100 filmes, muitos dos quais, infelizmente, perdidos. Mas dificilmente poderia ser melhor carta de apresentação, ou celebração, do cineasta a soma das versões restauradas de As irmãs de Gion (1936), Senhorita Oyu (51), Oharu – vida de uma cortesã (52), Contos da lua vaga (53) e Os Amantes Crucificados (54).
 
Todos esses filmes guardam o “toque Mizoguchi”, evidenciando a busca de um humanismo traduzido por uma crítica social sutil, embora firme, denunciando a permanência das estruturas feudais na mentalidade japonesa, especialmente no tocante à opressão feminina. Ainda que os filmes se ambientem em outras épocas, é clara a conexão traçada por Mizoguchi entre esse passado da ficção e a realidade das relações humanas no século XX.
 
As esplêndidas heroínas de Mizoguchi, é bom que se frise, nem sempre eram mães de família – um detalhe que se nutre da própria biografia do diretor. De origem pobre, ele viu sua irmã ser vendida e transformada em gueixa que, anos depois, pagou pelos estudos do irmão. Frequentemente, as mulheres em seus filmes eram prostitutas, como é o caso das protagonistas de As irmãs de Gion, as irmãs Omocha (Isuzu Yamada) e Umekichi (Yoko Umemura), moradoras de Gion, a zona do meretrício de Quioto.
 
Como todas as pobres mulheres de sua condição, as duas anseiam encontrar um protetor rico, que possa tornar menos árdua a sobrevivência diária. Umekichi, a mais velha, no entanto, é mais romântica e se apega a um comerciante falido, Furusawa (Benkei Shiganoya). Omocha, a caçula que estudou, é mais pragmática e manipuladora, tentando usar a seu favor e da irmã o interesse de um comerciário, Kimura (Taizo Fukami), apaixonado por ela, e de um rico comerciante, Jurakudo (Fumio Okura), que tem interesse por Umekichi.
 
Mas não há, numa sociedade patriarcal, como uma mulher se dar bem – ainda mais, sendo uma gueixa, por mais desejada que possa ser. É essa também a linha narrativa de Oharu – vida de uma cortesã (52), um dos mais celebrados trabalhos da atriz Kinuyo Tanaka, atriz-fetiche (e paixão) do diretor, num filme vencedor do Leão de Prata no Festival de Veneza.
 
Ao contrário das irmãs de Gion, Oharu foi uma mulher nobre, que caiu em desgraça justamente pela paixão proibida por um criado (Toshiro Mifune). Tornando-se cortesã, ainda assim obtém um alto status, pois passa a ser protegida do poderoso Lorde Matsudaira (Toshiaki Konoe), a quem deve dar um herdeiro, já que sua mulher é estéril.
 
Nem sua beleza rara, nem o nascimento do herdeiro garantem, no entanto, a posição de Oharu, que se verá lançada a uma progressiva decadência. Baseado num romance de Ihara Saikaku, de 1686, este era o filme de que o diretor mais gostava, e um daqueles a que mais se dedicou – como são provas a adaptação que filtra o cinismo do livro original em favor da ênfase ao contexto social e a virtual multiplicação de um reduzido número de planos (197) através da virtuosidade de uma câmera que se move em longos deslocamentos sinuosos.
 
Inacreditavelmente, na época Oharu... foi um fracasso comercial. Entre os críticos, foi o oposto, reforçando um prestígio que ajudou o diretor a fechar um contrato com o estúdio Daiei para realizar oito filmes com total liberdade, em seus últimos quatro anos de vida.
 
Tão conhecido, celebrado e premiado como Oharu... – e igualmente vencedor de um Leão de Prata em Veneza – Contos da lua vaga (53) justapõe realismo e fantasia com rara perícia ao adaptar duas histórias do autor Ueda Akinari, contando com a parceria do roteirista preferido do diretor, Yoshitaka Yoda. Nem por esta preferência profissional Yoda teve facilidades, bem ao contrário. Sempre muito perfeccionista, Mizoguchi o fez produzir nada menos do que cinco versões do roteiro, o que não impediu muitas mudanças em cenas e diálogos durante as filmagens.
 
O resultado, em todo caso, é sublime. Em tempo de guerra civil no Japão, no século 16, duas famílias de camponeses têm sua vida transtornada. A chegada de um exército põe sua aldeia em fuga, mas Genjuro (Masayuki Mori) não quer perder sua fornada de cerâmicas, colocando em perigo seu filho e sua mulher, Myiagi (Kinuyo Tanaka). Seu vizinho, Tobei (Eitaro Ozawa), por sua vez, abandona sua mulher, Ohama (Mitsuko Mito), pelo sonho desvairado de tornar-se samurai. Símbolos de uma condição humana capaz de cegar-se por sua ambição e teimosia, os dois homens são paradigmas da opressão masculina que o cineasta sempre procurou criticar.
 
Entre as sequências mais admiradas estão as do envolvimento de Genjuro com a misteriosa lady Wakasa (Machiko Kyo), que nada mais é do que um fantasma – numa caracterização que deve muito ao teatro Nô, assim como a música, cuja assinatura principal é do talentoso Fumio Hayasaka. Uma saborosa análise deste clássico, realizada pelo crítico britânico Tony Rayns, compõe um dos melhores extras do pacote.
 
Um amor proibido é o centro de Senhorita Oyu (51), que registra mais uma performance qualificada de Kinuyo Tanaka, no papel de uma viúva, presa a obrigações incontornáveis junto à família do marido para criar seu filho, e que se torna objeto da paixão do jovem Shinnosuke (Yuji Hori) – que é apresentado como candidato a noivo à irmã dela, Shizu (Nobuko Otowa).
 
A trama, que adapta livro de Junichiro Tanizaki, se estrutura sobre um trágico intercâmbio de sacrifícios, a partir do casamento de conveniência entre Shizu e Shinnosuke. Estas paixões sufocadas rebatem na tela em imagens de uma delicada beleza – cada cena é como uma pintura, desenrolada em longos planos-sequência, como os tradicionais pergaminhos emakimono.
 
Último e mais recente título do pacote, Os Amantes Crucificados (54) inspira-se, por sua vez, numa peça de Monzaemon Chikamatsu. A trama parte de outro amor proibido, entre a dama rica e casada Osan (Kyoko Kagawa) e um dos empregados de seu marido, Mohei (Kazuo Hasegawa). Mais do que importar-se com a possível traição da mulher, o rico Ishun (Eitaro Shindo) tem em vista utilizar o imbróglio em proveito próprio, já que cobiça uma jovem empregada, Otama (Yoko Minamida).
 
O pano de fundo da história revela as espantosas condições de trabalho da casa impressora pertencente a Ishun, em que os empregados mal têm tempo de descansar ou dormir, morando no próprio local. Todos são aprisionados por sua condição social, especialmente as mulheres, mesmo Osan – que, se for acusada de adultério, deverá ser crucificada com o amante, como reza a lei da época, o século 17. O que Mizoguchi parece ter em mente é pôr o dedo na ferida, expondo o alto preço para todos de submeter-se a uma ordem injusta.
Entre os extras, destaque para as entrevistas de colaboradores estreitos de Mizoguchi, como seu diretor de fotografia, Kazuo Miyagawa, seu assistente de direção e produção Tokuzo Tanaka, e o cineasta Masahiro Shinoda. Há também um depoimento do crítico Sergio Alpendre sobre o estilo e a obra do cineasta. 

Neusa Barbosa


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