Os filhos do padre

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Sinopse

Aflito porque em sua paróquia há mais funerais do que nascimentos, o jovem padre Fabian alia-se ao fabricante local de preservativos, para que eles sejam furados. A tramoia tem consequências imprevistas.


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Crtica Cineweb

11/03/2014

Na primeira cena de Os Filhos do Padre (2013), a câmera viaja por cima de berços com vários recém-nascidos chorando no que seria um berçário de maternidade. Logo depois, revela-se que tudo não passa de uma alucinação do protagonista, mostrando de cara que esta produção croata não é uma comédia comum.
 
Trata-se do quinto longa de Vinko Bresan, conhecido pelo seu humor ácido ao retratar o conturbado panorama sociocultural do seu país natal e dos Bálcãs, como em How the War Started on My Island (1996), Marshal Tito’s Spirit (1999) e Witness (2003). Neste novo trabalho, o diretor fez sucesso trazendo para as telas a controversa peça homônima de Mate Matisic – o próprio autor foi o responsável pelo roteiro adaptado, além da trilha sonora – e arrecadou a maior bilheteria da Croácia no ano passado.
 
O argumento inusitado é uma das principais razões de tamanho interesse do público. Em confissão, o padre Fabian (Kresimir Mikic) narra, através de flashbacks – às vezes, até falando diretamente para a câmera –, os curiosos acontecimentos ocorridos durante sua passagem em uma ilha da Dalmácia, um cenário recorrente nas primeiras obras de Bresan. Na pequena vila do lugar, o jovem sacerdote, assistente do amado pároco local (Zdenko Botic), se preocupava com o envelhecimento da população insular, pois participava de vários funerais, mas não havia registrado nenhum nascimento no livro da paróquia até então.
 
Quando Petar (Niksa Butijer) se confessa para Fabian dizendo que sua esposa (Marija Scaricic) o acusa de matar pessoas por vender camisinhas em seu quiosque para tantos homens na ilha, o padre tem uma ideia para combater a causa da reduzida taxa de natalidade. Ele passa a furar as camisinhas comercializadas pelo vendedor, com a ajuda do próprio. Depois, para melhorar a eficiência do plano, conta com o auxílio do louco Marin (Drazin Khun), que troca as pílulas anticoncepcionais de sua farmácia por vitaminas.
 
Com uma história dessas, o riso vem fácil, menos por causa de um humor físico, usado apenas pontualmente, e mais através da ironia crítica e da sequência de situações bizarras. O diretor trabalha para reforçar esse aspecto ao materializar o pensamento do protagonista em um fundo branco e criar cenas surreais. A bela fotografia de Mirko Pivcevic, que utiliza bem o widescreen em seus planos médios e conjuntos, usa o travelling para aproximar a câmera dos personagens e aumentar o tom cômico; assim como a música regional de Matisic, que também causa o mesmo efeito, embora comece a soar repetitiva no final do longa.
 
Mas a paleta de cores, que alterna entre a vivacidade do branco das casas, o amarelado e marrom do interior delas, até chegar ao azul intenso utilizado à noite, mostra que a leveza da forma contrasta com a profundidade dos temas abordados. Além de pontuar a questão das baixas taxas de natalidade na Europa, Bresan critica o nacionalismo croata, através de Marin, abordando novamente as guerras balcânicas, as disputas religiosas regionais e até o fantasma da limpeza étnica que assombra os países formadores da antiga Iugoslávia.
 
No entanto, ele se debruça mais na crítica à Igreja Católica: em relação à sua política quanto aos preservativos e contraceptivos – uma crítica, por sinal, compartilhada por boa parte dos fiéis católicos –, aos constantes casos de pedofilia e à rigidez de dogmas e sacramentos, como o da confissão. No entanto, tais alfinetadas seriam mais eficientes dois anos atrás. Já que agora se vive nos tempos de Papa Francisco, em que o próprio pontífice mostra-se disposto a renovar as velhas estruturas da Igreja pelo mundo.
 
Mesmo assim, é neste juízo a respeito da Igreja que Os Filhos do Padre reserva seus melhores momentos, a exemplo da conversa do sacerdote com o bispo; porém, também é onde ele se perde no decorrer do história. A trama se intensifica a ponto de o filme tornar-se mais pesado no final. Ainda sim, é uma obra que merece ser vista, não só por provir de uma cinematografia desconhecida pela maioria do público brasileiro, mas por ser um raro exemplo de comédia criativa e reflexiva.

Nayara Reynaud


Trailer


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