A vida secreta de Walter Mitty

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Sinopse

Walter Mitty é o chefe da seção de negativos da revista "Life", que vai ter lançada sua última edição em papel, mantendoa apenas sua edição eletrônica. Ele vive um cotidiano impregnado de fantasias, atormentado pela própria timidez e um chefe implicante. Até que aparece uma oportunidade de viver uma real aventura.


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Crítica Cineweb

24/12/2013

Em 1969, sob influência da corrida espacial entre Estados Unidos e União Soviética, durante a Guerra Fria, e da repercussão de 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968), de Stanley Kubrick, o músico inglês David Bowie compôs Space Oddity. A canção, que se tornaria um dos maiores hits do cantor, conta a história do astronauta Major Tom, que está de partida para uma missão e, lá no espaço, sente o medo universal de desbravar o desconhecido e enfrentar isso sozinho. No novo filme A Vida Secreta de Walter Mitty (2013), o protagonista, interpretado por Ben Stiller, é caçoado pelo seu chefe Ted (Adam Scott), que o chama de Major Tom, por ficar “fora do ar” algumas vezes durante o trabalho.
 
Esta é uma nova versão cinematográfica – uma já foi realizada com Danny Kaye, em 1947 – do conto homônimo de James Thurber, publicado em 1939 na revista New Yorker e famoso até hoje nos EUA. A história original retrata um homem que vive entre os delírios da sua fértil imaginação e o cotidiano de sua monótona realidade. Já o filme, dirigido pelo próprio Stiller, traz esse dilema do personagem para os dias atuais de maneira bem diferente.
 
Walter Mitty agora é o chefe da seção de negativos da revista Life, que está prestes a fechar, passando a ser apenas um site na internet. Curiosamente, a revista, reconhecida como uma das mais importantes da área de fotojornalismo por décadas, foi realmente encerrada em 2000, partindo das publicações mensais para encartes semanais de jornais e, depois, um website. Para o público brasileiro, isso não faz tanta diferença, mas a distância de mais de 10 anos entre o acontecimento e a homenagem pesa entre os norte-americanos, para quem o filme pode parecer datado.
 
Nos dias conturbados de transição da revista, Walter convive com as suas fantasias e a triste realidade de não conseguir declarar-se à colega de trabalho por quem está apaixonado, Cheryl Melhoff (Kristen Wiig), sofrer bullying do novo chefe – que, aliás, é um personagem caricatural ao extremo, beirando o ridículo tanto pela caracterização quanto por suas falas – e tentar achar de qualquer maneira o corte 25 do negativo enviado pelo famoso fotógrafo Sean O’Connell (Sean Penn), que seria a capa da última edição da publicação, mas sumiu. Sem sucesso em sua busca em Nova York, ele parte para uma aventura na Groenlândia e outros lugares exóticos, como Islândia e Afeganistão, atrás do artista e da foto.
 
Ben Stiller, realmente, se sai melhor em um estilo mais contido de atuação, sem recorrer a caretas nesta comédia dramática, que leva a risadas contidas do espectador e algumas gargalhadas em momentos pontuais, a exemplo do delírio com Benjamim Button. Mas, como diretor – ele já foi o responsável por Zoolander (2000) e Trovão Tropical (2008), entre outros –, este seu melhor trabalho.
 
Um dos problemas, por exemplo, é que o conto traz a imaginação como uma forma de escapismo de Mitty, um homem oprimido por sua esposa dominadora, enquanto o longa não desenvolve bem as razões dessa mente fértil do protagonista. As motivações do Walter cinematográfico podem ser, talvez, decorrentes do isolamento característico do seu trabalho ou da morte de seu pai, mas a sensação é que as figuras da mãe, vivida por Shirley MacLaine, e da irmã Odessa (Kathryn Hahn), são subaproveitadas na trama.
 
O primeiro ato de A Vida Secreta... tem um bom ritmo com a alternância entre imaginação e realidade. No decorrer do filme, esse recurso diminui naturalmente, até porque isso funciona em uma história de duas páginas mas a recorrência do mesmo tipo de piada não se sustentaria em 90 minutos de exibição. Por isso, como clama a música do Arcade Fire presente na trilha, Wake Up, o protagonista vai aos poucos acordando da sua letargia habitual, embalado pelo lema da revista Life – cuja publicação é, em si, um simbolismo no longa –, usado exaustivamente como um mantra na história, apesar da maneira interessante com que, algumas vezes, é incluído através do grafismo bem realizado da produção. Assim, ao som de Space Oddity fazendo a contagem regressiva, Walter parte para vivenciar aventuras reais e é aí que entra o exagero do diretor, ao tentar transformá-lo num herói.
 
Vários elementos do longa são utilizados para este fim. A fotografia de Stuart Dryburgh é esteticamente bonita, apesar de se assemelhar, muitas vezes, ao visual dos documentários do canal National Geographic. A questão é que o romantismo evocado pelas imagens é somado ao apelo emocional buscado na ótima trilha de estilo indie por causa do roteiro que abusa do discurso típico de autoajuda. Existem momentos em que o filme parece um daqueles vídeos motivacionais que circulam na internet, com belas imagens e músicas, mas falando mais do mesmo. E se Major Tom vai ficando depressivo no decorrer da composição de Bowie, o filme também perde o vigor e prefere não percorrer caminhos desconhecidos, recorrendo a clichês no terceiro e último ato.
 
Entretanto, apesar desses pontos negativos, A Vida Secreta de Walter Mitty consegue às vezes cativar o público e, por causa do seu conteúdo e da data de estreia, tem potencial para fazer sucesso como filme de motivação para “resoluções de ano novo”.

Nayara Reynaud


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