O Cinema de Ozu

O Cinema de Ozu

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Caixa reúne cinco dos mais refinados dramas do diretor Yasujiro Ozu: "Era uma vez em Tóquio", "Também Fomos Felizes", "Era uma vez um pai", "Crepúsculo em Tóquio" e "Filho Único". O principal extra é o documentário "Conversando com Ozu", que ouve seus admiradores, como os diretores Wim Wenders, Aki Kaurismaki e Claire Denis.


Extras

O principal extra é o documentário "Conversando com Ozu" (40 min), com depoimentos de diretores que o admiram, como Wim Wenders, Claire Denis e Aki Kaurismaki. Áudio 2.0 (japonês), com legendas em português.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

02/10/2013

Quanto rigor e quanta delicadeza povoam cada um dos fotogramas da obra sublime de Yasujiro Ozu (1903-1963), o diretor japonês que se tornou um dos paradigmas de um cinema da intimidade e da família, admirado por cineastas tão diferentes quanto o alemão Wim Wenders, o finlandês Aki Kaurismaki, a francesa Claire Denis e o chinês Hou Hsiao-Hsien.
 
Todos eles, e mais alguns, dão seus depoimentos no documentário Conversando com Ozu, principal extra da caixa, contendo cinco dos títulos mais celebrados do cineasta japonês, em versões restauradas, lançadas pela Versátil.
 
O mais antigo filme é Filho Único (1936), primeiro título sonoro da carreira de Ozu, que resistiu à adoção do som – como mais tarde resistiria ao uso da cor -, sempre apegado ao perfeccionismo com que construía suas histórias e supervisionava cada detalhe, dos objetos de cena à música, característica definidora deste samurai da forma que não se deixava deslumbrar pelo falso brilho das novas técnicas. Para ele, a essência do cinema estava além disso.
Em Filho Único, a protagonista é uma pobre tecelã viúva, Otsune (Choko Iida), que assume como sua missão na vida enviar seu único filho, Ryosuke (Masao Hayama, quando criança; Shin’ichi Himori, adulto) para estudar em Tóquio. A decisão custa todos os sacrifícios possíveis a Otsune que, anos mais tarde, sofre com a insatisfação de Ryosuke com o próprio destino, no momento em que ele, casado e com um filho, sente que a vida não está lhe dando tudo que prometia.
 
No drama Era Uma Vez um Pai (1942), é o lendário ator Chishu Ryu - intérprete favorito de Ozu – quem entra na pele do professor Horikawa, um viúvo que cria sozinho seu único filho, Ryohei (Hanuhiko Tsuda/Shuji Sano) e tem sua vida transtornada por um acidente, causando a morte de um de seus alunos.
 
Sentindo-se responsável, Horikawa abandona a profissão e decide ganhar a vida de outro modo em Tóquio, o que acarreta sua separação do filho, que permanece numa escola rural. Embora se vejam sempre que possível, a distância entre ambos é uma tristeza incontornável para o filho, que sonha um dia poder morar novamente com o pai. Mas implicações de sua própria vida adulta vão adiando o projeto.
Um aspecto curioso é como Ozu, realizando este filme no auge da ascensão do militarismo imperial japonês, período em que ocorria censura, infiltra, em dois momentos, uma menção à convocação para o exército. O oposto desse militarismo está, certamente, na composição delicada deste afetuoso microcosmo familiar, presente tanto em Filho Único – em que se observa o sacrifício permanente do filho para esconder da mãe a própria penúria – quanto em Era Uma Vez Um Pai, em que pai e filho aproveitam até a última gota cada uma de suas escassas horas juntos. Este afeto, sem dúvida, é um comentário pacifista suficiente para ilustrar a força sutil da independência do sentimento de Ozu.
 
Retratando um universo marcado pela tradição do poder masculino, Ozu não deixou de criar personagens femininas de primeira grandeza, como faz, por exemplo, em Também Fomos Felizes (1951), em que sua atriz-fetiche, Setsuko Hara, interpreta a intrépida Noriko – uma moça independente, inclusive economicamente (é secretária) -, que enfrenta o ranço dos casamentos arranjados, resistindo a tentativas de compromisso orquestradas por seu irmão mais velho (Chishu Ryu) e até por seu chefe. Dessa maneira, o filme incorpora também as muitas mudanças ocorridas no Japão mais ocidentalizado do pós-guerra.
 
Um dos mais famosos e celebrados dramas do mestre japonês, Era Uma Vez em Tóquio (1953), merece com toda certeza ser visto e revisto, pela complexidade de olhares que sintetiza para retratar a visita de um velho casal camponês (Chishu Ryu e Chieko Higashyama) a seus filhos em Tóquio. Só assistindo ao filme é possível compreender toda uma gama de preceitos, protocolos, expectativas e frustrações familiares no contexto do Japão da época, a partir de um notável conjunto de personagens complexos – e que se assemelham a pessoas de outras épocas e lugares, comprovando a universalidade do enfoque do diretor.
 
Fecha o pacote o drama Crepúsculo em Tóquio (1957), que traça um perfil profundo de duas irmãs, Takako (Setsuko Hara), em crise no casamento, e Akiko (Ineko Arima), solteira às voltas com uma gravidez secreta e indesejada. Acima até das intenções do próprio Ozu, que declarou ter pretendido colocar o foco sobre o pai das irmãs, um homem abandonado pela mulher (Chishu Ryu), prevalece a força dos dramas femininos, como a solidariedade difícil entre as duas moças e seu enfrentamento com a figura dúbia da mãe que as abandonou (Isuzu Yamada).
 
São cinco filmes fundamentais - dentro de uma obra que chegou a 54 títulos, dos quais 36 se salvaram até nossos dias. Nestes cinco, a família resiste em tudo o que sobrevive à pobreza, à guerra, à indiferença, a todos os acidentes da vida, embebida nesse afeto contido mas intenso com que Ozu revestia cada um de seus personagens.

Neusa Barbosa


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