Flores raras

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Sinopse

Em depressão e crise pessoal, a poetisa Elizabeth Bishop viaja para o Brasil, em 1951. Hospedada na casa de uma antiga colega de universidade, Mary, Elizabeth desperta a paixão da companheira dela, a arquiteta e paisagista Lota de Macedo Soares. Lota e Elizabeth viverão, por quase duas décadas, um amor atribulado.


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Crítica Cineweb

08/08/2013

A relação entre a poeta americana Elizabeth Bishop (1911-1979) e a paisagista brasileira Lota de Macedo Soares (1910-1967) é o tipo da história que pede para ser contada. Além do romance entre duas mulheres criativas, inteligentes e ousadas, e seus naturais choques pessoais e culturais, surge aí a possibilidade de um retrato de época do efervescente Brasil do início dos anos 1950 e 1960, atropelado pela ditadura militar, e tantos outros temas, comportamentais e políticos, que poderiam caber num filme.
 
Flores Raras, o filme do diretor Bruno Barreto que tenta dar conta de alguns aspectos dessa fascinante história, tem alguns trunfos a seu favor, o principal deles a presença de duas atrizes experientes e carismáticas, a brasileira Glória Pires para o papel de Lota, a australiana Miranda Otto como Elizabeth. Se o filme tem alguma carga de emoção, isto se deve sobretudo à entrega das duas intérpretes que, não raro, superam as limitações de um roteiro irregular, que passou por várias mãos – primeiro Carolina Kotscho, depois Matthew Chapman e Julie Sayres, tendo como ponto de partida a biografia de Carmem L. Oliveira, Flores raras e banalíssimas, que inspirou o título do filme.
 
Incomoda, especialmente, uma inadequação da direção das atrizes, que se observa particularmente em Glória Pires, em alguns momentos, transformando a impetuosidade e energia de sua Lota numa caricatura de masculinidade forçada. Sai-se melhor Miranda Otto para encarnar a delicadeza instável da poeta, sofrendo de alcoolismo e depressão e que vai desabrochar no Brasil sua personalidade literária mais profunda, vencendo, enquanto vivia aqui, seu primeiro prêmio importante, o Pulitzer, em 1956.
 
O filme apresenta uma figura menos conhecida, e o terceiro vértice de um triângulo amoroso, a americana Mary (Tracy Middendorf). Companheira de Lota, ela era ex-colega de Elizabeth na Universidade de Vassar. A poeta vem visitá-la, em 1951, no auge de uma crise pessoal. É aí que Lota se apaixona por Elizabeth, iniciando-se uma relação que duraria quase 20 anos.
 
O contexto histórico e cultural, aspecto importante num filme que transita entre dois países e duas culturas, num momento histórico muito rico, é outro aspecto em que roteiro e direção falham. Por mais que o foco seja a relação entre as protagonistas, há diversos momentos em que a realidade política permeia sua história, até porque um dos melhores amigos de Lota era o jornalista e político Carlos Lacerda (Marcello Airoldi).
 
O retrato de Lacerda, aliás, é uma das maiores inconsistências históricas do enredo, edulcorando a figura do político, conspirador de primeira hora, quando governador da então Guanabara, a favor do golpe de 1964. Este e outros aspectos passam ao largo, atenuando-se o lado mais polêmico de Lacerda, apresentado como um intelectual tranquilo, que falava tão bem o inglês, além de um governador de visão, que chamou Lota para idealizar o Parque do Flamengo.
 
Mesmo quando tenta introduzir a realidade social, de desigualdade do país, no oásis do magnífico sítio na Samambaia, em Petrópolis, onde viviam as protagonistas, falta sutileza – caso da sequência em que Lota acompanha Mary à casa de uma família pobre, concretizando a virtual “compra” de um bebê para a companheira, obcecada pela maternidade.
 
As questões que esta história atravessa, sejam íntimas e pessoais, sejam históricas, certamente são de uma complexidade enorme. Assim, seu tratamento no filme ressente-se não só de um aprofundamento, como de um tom menos mecânico da direção. Por tudo isso, escapa nas entrelinhas o grande filme que Flores Raras poderia ter sido.

Neusa Barbosa


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