Solaris

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Crítica Cineweb

05/03/2003

Solaris é geralmente definido como um filme de ficção científica, o que não deixa de ser. Entretanto, dificilmente pode ser plenamente compreendido apenas a partir dessa estreita classificação de gênero. Muito menos deve ser reduzido a uma comparação de críticos do passado, que o classificaram como "um anti-2001 - Uma Odisséia no Espaço", mesmo reconhecendo que há um relativo parentesco temático entre Solaris e a obra de Stanley Kubrick.

Feito em 1972 pelo diretor russo Andrei Tarkovsky (1932-1986), um poeta que se apropriou do cinema e fez de suas imagens verdadeiros versos, o filme se expande a cada visita que se faz a ele. Quem procurar, então, esgotar todas as suas possibilidades a cada vista, geralmente conseguirá o contrário - ou seja, sairá com mais dúvidas ou possibilidades de interpretação do que antes. Por seu estilo metafísico, espiritualista, que cultiva imagens e seqüências lentas, na procura de captar a essência mesma de uma experiência do tempo e da vida, Tarkovsky tornou-se o mestre de alguns cineastas, como seu compatriota Aleksandr Sokúrov. Pela identidade entre os dois cineastas, aliás, não será exagero enxergar na estação espacial que está no centro de Solaris uma espécie de precursora da arca temporal, representada pelo Museu Hermitage, de Arca Russa, de Sokúrov.

Adaptando livremente um romance homônimo do polonês Stanislaw Lem, o enredo localiza-se no planeta Solaris, delimitado por um oceano que demonstra reações inteligentes a cada tentativa dos astronautas humanos de pesquisarem seu funcionamento. Avistado de todas as escotilhas da estação espacial que abriga os pesquisadores, esse oceano, porém, mostra-se tanto mais misterioso quanto mais tentativas são feitas para precisar sua verdadeira natureza.

A narrativa começa com uma conversa entre o psicólogo Kris Kelvin (Donatas Banionis) e o astronauta Burton (Vladislav Dvorzhetsky), este o único entre os presentes que já esteve em Solaris. A conversa tem por objetivo fornecer a Kelvin elementos para compreender o impasse atual da estação espacial, onde um dos três integrantes suicidou-se e os sobreviventes dão sinais de comportamento bizarro. Burton relata uma estranha experiência, em que foi envolvido pela espessa neblina do planeta e atormentado pela visão de uma monstruosa criança de quatro metros de altura. Incrédulo, mas respeitoso, Kelvin escuta o relato e prepara-se para sua viagem ao planeta.

Os longos corredores da estação parecem o interior de um navio fantasma, com restos de objetos quebrados e sinais visíveis de desagregação por toda parte. Kris descobre um filme em que Sartorius (Anatoli Solonitsyn) explica as razões de seu suicídio. Outro tripulante, Gibarian (Sos Sarkisian), tranca-se em seu laboratório onde, pela porta entreaberta, Kelvin vislumbra um estranho anão. O outro habitante da estação, Snout (Yuri e Anatoli Yarvet), por sua vez, mostra-se bastante reticente e lhe recomenda prudência. Pelos corredores circulam também outras figuras misteriosas, como uma silenciosa mulher madura de cabelos compridos e uma jovem que corre, fazendo barulho com o que parece ser um guizo.

Enquanto procura dar um sentido a tudo o que testemunhou, Kelvin tem ele mesmo uma experiência inacreditável: é visitado por sua mulher, Hari (Natalia Bondarchuk), morta há sete anos. Acreditando ser vítima de uma alucinação, o psicólogo tenta destruir a mulher - que reaparece, ilesa, em seguida. Convence-se, então, de ser parte de uma vivência bem mais radical do que toda a sua ciência pode dar conta e para a qual ele não encontra meios de responder. Hari, por sua vez, reage exatamente como sua mulher, exceto pela memória do passado. Ela não se lembra de sua própria morte e parece insensível a toda espécie de dor física, regenerando-se quase instantaneamente quando se fere, como ao arrombar uma porta metálica. Além disso, não conhece o sono ou os sonhos.

Kelvin mergulha num estado de espírito cada vez mais sombrio, pela culpa pela morte da mulher (que se suicidara depois de abandonada por ele) tendo que, ao mesmo tempo, conviver com o que parece ser uma nova versão dela, sobre cuja realidade ele duvida todo o tempo. Progredindo nessa linha, o filme antecipa noções como a de realidade virtual - algo inexistente tanto em 1961, quando Lem escreveu o romance, quanto na data de realização do filme - ao mesmo tempo em que coloca em discussão temas caros a Tarkovsky, como o sentido da vida, da memória, da tentativa de destruir o passado ou de encontrar fórmulas de conviver com seus fantasmas. Seus personagens não podem acreditar no que vêem e que parece fruto de sua própria consciência dos outros seres e dos objetos. Começando e terminando na fazenda do pai de Kelvin, o filme abre inúmeras possibilidades de percepção e reinterpretação, com imagens e efeitos bastante audaciosos, dadas as limitações técnicas da época.

Em seu livro Esculpir o Tempo, onde resumiu suas idéias cinematográficas, Tarkovsky comentou suas dificuldades com o protagonista do filme, Donatas Banionis, justamente por sua forma peculiar de trabalho, em que o filme era uma substância fluida, que se formava à medida que ia sendo feito. "Infelizmente, nunca desenvolvi uma relação profissional com Donatas Banionis...pois ele pertence à categoria dos atores analíticos incapazes de trabalhar sem conhecer o 'como' e o 'porquê'. Donatas não consegue representar nada de espontâneo, que venha de dentro dele...Isso se deve, quase certamente, a todos os anos que passou no teatro. Ele é incapaz de aceitar que, no cinema, o ator não deve ter uma imagem de como será o filme concluído. No entanto, até o melhor dos diretores, que sabe exatamente o que quer, dificilmente conseguirá fazer uma idéia antecipada do resultado final". Isto não significa que Tarkovsky tenha rejeitado a interpretação de Banionis, muito pelo contrário. Em outra passagem do livro, afirma a respeito: "Mesmo assim, Donatas foi um excelente ator e só posso ser grato por ter sido ele, e não outro, quem fez o papel. Não foi fácil, porém".

Sobre o filme, Tarkovsky assim se expressa no mesmo livro: "Solaris tratava de pessoas perdidas no Cosmo e obrigadas, querendo ou não, a adquirir e dominar mais uma porção de conhecimento...Os personagens de Solaris eram atormentados por desilusões e a saída que lhes oferecemos era demasiado ilusória. Baseava-se em sonhos, na oportunidade de reconhecer as próprias raízes - aquelas raízes que sempre ligam o homem à Terra onde nasceu. Contudo, até esses laços já se haviam tornado irreais para eles".

Por esse estilo subjetivo de filmar, com histórias impregnadas de considerações metafísicas e espirituais, Tarkovsky teve problemas com as autoridades soviéticas, obcecadas, em seu tempo, na imposição de um modelo extremamente rígido de realismo socialista. Seu filme Andrei Rublev (1966) foi proibido na URSS, embora circulasse em outros países. foi recebido com restrições, que se transformaram em pressões incontornáveis em relação a suas obras seguintes, O Espelho (1974) e Stalker (1979). Desgostoso com a falta de liberdade artística, Tarkovsky acabou emigrando para a Itália, em 1984, e fazendo nesse país dois de seus filmes seguintes, Nostalgia e Tempo de Viagem(ambos em 1983). Seu último filme, O Sacrifício (1986), provavelmente o mais conhecido, foi uma co-produção entre a Suécia, França e Inglaterra. Ele morreu de câncer em Paris, nesse mesmo ano, aos 54 anos.

Neusa Barbosa


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