Poucas e Boas

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Crítica Cineweb

13/01/2003

Com pouco mais de um ano de atraso em relação ao lançamento nos EUA, chega às telas esta comédia em que Woody Allen faz piada com seu já lendário bom-gosto musical, ao inventar um guitarrista fictício dos anos 30 que renova a imagem de durão do ator Sean Penn, mostrando aqui sua versatilidade numa vertente cômica. Mas nem é preciso gostar de música para divertir-se com esta farsa montada em torno da vida de Emmet Ray (Penn), uma desastrada mistura de malabarista das cordas e fanfarrão, dotado de uma irresistível atração pela sarjeta.

Trata-se de uma falsa biografia intercalada por depoimentos, como do próprio Woody Allen, que servem apenas para reforçar a intenção cômica - um pouco à maneira de Zelig (83), só que bem mais picaresco por conta da interpretação endiabrada de Sean Penn, merecidamente indicado ao Oscar de melhor ator.

Poucas e Boas, o título brasileiro do filme, é quase outra piada. Mas pode-se até considerar que foi uma adaptação criativa para uma expressão intraduzível. Se fosse vertido ao pé da letra, "Sweet and Lowdown", o nome original, poderia resultar em algo como "doce e baixinho", aquela forma de tocar da bossa-nova, por exemplo. Outra ironia, porque nada mais longe da doçura e da discrição do que o espalhafato do protagonista, um tipo duvidoso, briguento, cleptomaníaco, bêbado e cafajeste, que não tem qualquer impedimento moral para ganhar dinheiro como cafetão sempre que a oportunidade se apresenta - ainda mais porque ele é um músico cuja tragédia é não conseguir convencer seus contemporâneos da grandeza de seu talento, que ele acredita só ter competidor à altura no guitarrista belga Django Reinhardt (1910-1953).

Obcecado, Ray encontrou-se duas vezes com seu ídolo. Mas, nas duas ocasiões, a emoção foi tanta que ele simplesmente desmaiou. Não teve nem mesmo a oportunidade de declarar sua admiração por Django, muito menos ver se o outro o ajudava a galgar alguns degraus na carreira, sempre atrapalhada por vexames homéricos. Num deles, uma das seqüências mais hilariantes do filme, o guitarrista inventa de colocar no cenário de um show uma enorme lua de papel que lhe servirá como cadeira de balanço e deverá subir à medida que ele toca. Na noite da estréia, porém, Ray aparece tão bêbado que lhe falta coragem para sentar-se na engenhoca que ele mesmo criou. Empurrado pelos produtores, que agora exigem a performance, o músico finalmente encara a acrobacia - apenas para espatifar-se, ele, a guitarra, a falsa lua e qualquer moral que lhe restasse diante da platéia já enfurecida.

A devoção por Django abre uma janela para o real, já que o guitarrista de origem cigana e seu talento lendário realmente existiram. Mas também serve de pretexto cômico, especialmente porque o músico verdadeiro tinha uma personalidade quase tão tempestuosa quanto a de Ray - sem contar a de Sean Penn, na vida real, que recentemente desancou até o Woody Allen que lhe deu a oportunidade de viver esta que é uma de suas melhores interpretações. Personagem, ator e fetiche feitos um para o outro, como se vê.

Dentro do filme, em todo caso, é um grande prazer assistir Penn reinventar-se diante das câmeras e mostrar com tanto gosto sua habilidade cômica para encarnar as desventuras de Ray. Ele o faz com tanta propriedade e sabor que transforma até a antológica cafajestagem de seu personagem em motivo de ridículo. A desmoralização deste machão começa já no início, quando sai com um amigo para encontrar uma namorada. Os dois conhecem duas moças e, autoritário, Ray exige escolher sua acompanhante. Fica com a mais bonita, se achando muito esperto, mas sem desconfiar de que se trata de uma muda, Hattie (Samantha Morton).

Sendo Woody Allen o diretor espirituoso que é, escapa fácil de qualquer pieguice ao retratar uma personagem com uma deficiência, dando chance à jovem atriz inglesa Samantha Morton de mostrar seu talento de clown. Ela é comovente e engraçada a um só tempo, chapliniana como Virginia Cherrill que encarnou a florista cega de "Luzes da Cidade" (31). Um mérito que não passou despercebido também à Academia de Ciências e Artes Cinematográficas de Hollywood, que indicou Samantha entre as cinco melhores atrizes coadjuvantes em 99.

A força de Samantha é tão grande nesta comédia que ela não é ofuscada nem mesmo quando entra sob os refletores a escultural Blanche (Uma Thurman), uma divertida socialite com queda por homens rudes, que se torna protetora de Ray. Este rapidamente enxerga nela o primeiro degrau para um novo projeto de alpinismo social, desfrutando de novas roupas, carros e outros luxos, incapazes, porém, de mudar a sua essência de perdedor irredimível. Neste ambiente, uma ponta para se notar é a do diretor John Waters e seu indefectível bigodinho, que tanto furor fez no Festival do Rio BR 2000, no final do ano passado, onde veio prestigiar uma retrospectiva de seus filmes e seu novo trabalho, "Cecil B. Demente", ainda inédito no Brasil.

Neusa Barbosa


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