Doméstica

Doméstica

Ficha tcnica

  • Nome: Doméstica
  • Nome Original: Doméstica
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Brasil
  • Ano de produo: 2012
  • Gnero: Documentário
  • Durao: 80 min
  • Classificao: 12 anos
  • Direo: Gabriel Mascaro
  • Elenco:

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Sinopse

Sete adolescentes de diversas cidades do país recebem uma câmera digital e a tarefa de filmar o cotidiano de suas empregadas domésticas. O material bruto foi montado pelo diretor pernambucano Gabriel Mascaro, nesse filme que tem muito a dizer sobre as relações entre empregadas e patrões.


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Crtica Cineweb

29/04/2013

Em um de seus ensaios mais importantes, As ideias fora do lugar, o crítico literário Roberto Schwarz, comentando o Brasil escravocrata da época de Machado de Assis, diz: “O favor é a nossa mediação quase universal - e (é) mais simpático do que o nexo escravista”. Nesse mesmo texto, Schwarz comenta o paradoxo da importação das ideias europeias de liberalismo para uma sociedade escravocrata que aspirava a se desenvolver de forma capitalista.
 
Mas de 100 anos depois, não raro o favor continua sendo moeda de troca em nosso país. O que se vê no documentário Doméstica, do pernambucano Gabriel Mascaro, é uma prova mais do que concreta dessa prática. Realizado antes da “PEC das Domésticas”, o longa explora um terreno brumoso de relações trabalhistas, sociais e culturais entre famílias empregadoras e empregadas em diversos cantos do país. O filme entra em cartaz em São Paulo, Rio de Janeiro e Belo Horizonte.
 
O ponto de partida é simples: Mascaro deu uma câmera para sete adolescentes de diversas regiões e classes sociais para filmar o cotidiano de suas domésticas. O diretor não interferiu nessas filmagens, apenas pegou o material bruto e o montou. É nesse processo de montagem, de organização das ideias criando uma narrativa, que o filme acontece. Uma vez que os próprios adolescentes estão inseridos no contexto em que filmam, é praticamente impossível haver um distanciamento e, consequentemente, um olhar minimamente crítico. Mas a relevância do filme vem exatamente daquilo que não é dito explicitamente e transpira nas entrelinhas.
 
Curiosamente, todas as famílias filmadas mantêm, ao menos nas aparências, uma relação bastante cordial – em alguns casos de amizade- com seus empregados. Aí surge aquela famosa expressão que há muito parece ter-se tornado quase senso comum: “É como se fosse da família”. Frequentemente, a afirmação mascara a verdadeira natureza de relações trabalhistas que implicam na troca – trabalho e pagamento – e que devem reger, como em qualquer outro emprego, essa interação.
 
“Doméstica” ilustra bem, em seu estudo de casos, como acumular funções se torna uma prática quase imperceptível. A primeira das empregadas mostradas é filmada por um adolescente simpático. Com o tempo, além de seus afazeres dentro da casa, ela acumula a função de motorista – e, consequentemente, também é ela quem lava o carro. Ao fazer tarefas que não são eminentemente dela, seria necessariamente um caso de exploração? Há outro elemento: ela diz gostar do que faz, sempre quis aprender a dirigir, e com essa atividade realiza um sonho.
 
Outro caso interessante: uma diarista que tem sua própria diarista em casa para cuidar dos filhos e da casa enquanto trabalha, exatamente cuidando dos filhos e da casa de outra pessoa. Até que ponto isso representa uma repetição de um padrão social? A patroa que também é empregada repete em sua casa com a sua doméstica os mesmos comportamentos de sua patroa? Não há um paradoxo nessa questão? Mais no fim do filme, conhecemos uma dona-de-casa que é amiga de infância de sua empregada. Como estabelecer uma relação trabalhista com um vínculo afetivo tão forte?
 
Em um filme anterior, Um lugar ao sol (2009), Mascaro investigou como vivem e pensam os moradores das coberturas de luxo de várias cidades do Brasil. Nesse filme, o diretor é uma espécie de Eduardo Coutinho de sua geração, e, com perguntas que parecem banais, é capaz de deixar o entrevistado confortável o bastante para confessar coisas que normalmente não diria. Em “Doméstica”, faz um pouco de falta a presença do diretor nas entrevistas, mas, ao mesmo tempo, é bastante reveladora essa interação entre empregadores e empregados sem a presença de um mediador.
 
Parece que finalmente, com o PEC, as relações começam – ou ao menos deveriam – realmente se pautar pelo que são: trabalhistas, com direitos e deveres para ambos os lados envolvidos. Doméstica registra um período ainda coberto pela bruma do favor, pelas aparências – a relação de amizade, de afeto é, nem que seja num plano inconsciente, o véu que encobre o favor, a exploração do trabalho. Agora, um “Doméstica II”, feito pós-PEC, também seria muito revelador. 

Alysson Oliveira


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