O Invasor

Ficha técnica


Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 4 votos

Vote aqui


Locais de filmagem


Extras

Menu interativo, seleção de cenas, cenas de bastidores, making of, notas sobre a produção, notas sobre elenco e diretor, trailer de cinema, entrevistas.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

17/12/2002

Olhando nos olhos as contradições do Brasil como quem encara de frente a luz do sol, este é um filme feito para incendiar as retinas. Não dorme o sono dos justos quem assistir atento a esta trama inquietante que derruba os muros entre a elite e a periferia e inverte a lógica da sempre negada dívida social. A platéia mal tem forças para respirar enquanto assiste ao tenso desenrolar desta história policial, que serve como uma sombria reflexão sobre o mau estado da ética no País.

Em seu terceiro longa, Brant dominou como nunca sua arte, demonstrando uma excepcional maturidade como diretor e um crescimento indiscutível em relação a seus dois trabalhos anteriores, Os Matadores (97) e Ação Entre Amigos (98) - a ponto de não ser exagero enxergar-se uma trilogia temática e de estilo nestes seus três trabalhos.

O titã Paulo Miklos faz uma impressionante estréia como ator, vivendo o personagem-título, Anísio, um matador de aluguel da periferia de São Paulo que é contratado por dois sócios de uma construtora, Ivan (Marco Ricca) e Gilberto (Alexandre Borges), para matar um terceiro sócio. O assassino executa o serviço mas decide cobrar um preço muito maior do que o dinheiro, instalando-se no cotidiano da construtora e na cama da herdeira que não sabe do complô (Mariana Ximenes), conquistando seu lugar no andar de cima da sociedade com a fúria de um fio desencapado.

A cultura negra e popular que vive confinada nas favelas e periferias mostrou sua cara, energia e criatividade em O Invasor - em que o rapper paulistano Sabotage atuou, foi consultor dramático de Paulo Miklos para compor seu papel, além de assinar alguns dos rascantes raps da trilha, que funcionam como diálogos auxiliares da história. O rapper é a cara de um Brasil que, mesmo excluído da escola e dos mecanismos de poder da sociedade, respira sua vontade de existir e de se expressar e tem muito a dizer.

Retratando o momento atual com precisão desconcertante, o filme pinta um retrato a sangue quente, riscado a faca, de um Brasil atolado num beco sem saída, social e moral. Todos os personagens são revestidos de uma perversidade e de uma imoralidade tamanhas que poucos cineastas teriam a coragem de mostrá-las até as últimas conseqüências. Beto Brant teve. Fez um filme poderoso, contundente, necessário.

Bem ao contrário do protagonista do antológico Blow Up (66), de Michelangelo Antonioni - que fotografa o que vê e revela o que não vê por mero acaso -, a câmera de Brant tem o mérito da intencionalidade. Com uma colaboração estreita que equivale a uma verdadeira cumplicidade, dos co-roteiristas Marçal Aquino e Renato Ciasca, alinha minuciosamente as peças que entregam a visão do todo. Com isso, uma história que podia não passar de um recorte provisório do Brasil transforma-se numa radiografia feroz de um vácuo moral tragicamente persistente. No dilema do protagonista Ivan, o diretor recoloca o impasse, devolvendo a bola para a platéia. Como é que nós,
que estamos aqui e agora, saímos dessa?

Cineweb-5/4/2002

Neusa Barbosa


Deixe seu comentário:

Imagem de segurança