O Fabuloso Destino de Amélie Poulain

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Crítica Cineweb

13/01/2003

É um filme de pequenas coisas, detalhes corriqueiros, lugares-comuns, pessoas nada chiques nem famosas. Uma vizinhança discreta, uma mocinha anônima, cercada de pessoas tão simples quanto ela. É da soma destas minúcias, devidamente recobertas da dose exata de surrealismo, que o diretor e roteirista Jean-Pierre Jeunet conjurou uma fábula romântica que se tornou um dos maiores sucessos da história do cinema francês - hasteando bem alto a bandeira blanche-bleue-rouge em defesa da "exceção cultural" que a cinematografia gaulesa constitui face ao imperialismo dos blockbusters americanos.

Falar dos números de Amélie - mais de oito milhões de espectadores só na França - é identificar o espantoso poder de comunicação que o filme alastra pelo mundo, inclusive nos EUA, país tradicionalmente avesso à leitura de legendas. E ainda que agora este sucesso, largamente alardeado, possa mover novas multidões curiosas para o cinema, não há dúvida de que o primeiro fator que levou o filme a este patamar foi um boca-a-boca muito contagiante. Tanto quanto o filme.

É preciso ter um coração de pedra para não gostar de Amélie Poulain (Audrey Tautou). Pois ela é capaz de romper muito mais do que a crosta açucarada de sua sobremesa favorita, o creme brulé, com suas intervenções clandestinas no cotidiano das pessoas que a cercam - no percurso entre seu pequeno apartamento e o emprego no Café Deux Moulins, no fotogênico bairro de Montmartre, em Paris.

Achando-se excêntrica desde a infância, Amélie ergueu uma camada de solidão e timidez à sua volta. Sua imensa ternura e uma imaginação ainda maior são o motor de sua capacidade de quebrar a ordem estabelecida ao seu redor. Como se fosse uma deusa das pequenas coisas, a cativante moreninha de olhos grandes desafia a inevitabilidade dos pequenos dramas na vida de seus colegas, vizinhos ou mesmo desconhecidos - desde que identifique neles uma certa bizarrice da qual ela compartilha. Como é o caso de Nino (Mathieu Kassovitz, diretor de Rios Vermelhos e O Ódio), colecionador de fotos rasgadas de cabines de foto automáticas.

Assim, ela assume para si a função de aproximar o ciumento Joseph (Dominique Pinon) da hipocondríaca Georgette (Isabelle Nanty). Mas também de vingar a perversidade do quitandeiro Collignon (Urbain Cancellier) contra o empregado Lucien (Jamel Debbouze). Ou cutucar o isolamento de seu próprio pai viúvo (Rufus) roubando seu anão de jardim, fazendo com que uma amiga aeromoça mande fotografias do boneco em diversos lugares do mundo.

Para os mais céticos, a doçura e o bom-mocismo de Amélie poderão incomodar. Até mesmo o sucesso já obtido poderá ter a aparência de uma espécie de seita que corteja o pensamento único. Críticos franceses acusaram Jeunet e seu co-roteirista, Guillaume Laurant, da criação de uma França artificial, acima de conflitos sociais e da variedade cultural e étnica do país. Mesmo que se concorde com isto, parece inconcebível que alguém cole seriamente um rótulo racista nesta comédia romântica . E o compromisso com o realismo estrito é a última cobrança que se pode fazer a uma fábula.

Jeunet, que já assinara a direção de Delicatessen (90) e A Cidade das Crianças Perdidas (95, ambos em parceria com Marc Caro) e da produção americana Alien - A Ressurreição (97), fez como Wim Wenders em 1987 - voltou para casa e criou seu melhor filme. Usando intensivamente o material de que são feitos os sonhos - cores, música, liberdades poéticas e o poder mágico das coincidências e dos absurdos - ergueu um espelho no qual seu país reconheceu sua alma e outros povos encontraram um território em comum para o exercício da própria imaginação.

Neusa Barbosa


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