Boca

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País


Sinopse

Filho de um imigrante grego, Hiroíto de Moraes Joanides se tornou temido como o Rei da Boca, explorando a prostituição e o tráfico de drogas na zona central de São Paulo.


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Crítica Cineweb

26/09/2012

Cinebiografia de um dos mais famosos criminosos da história de São Paulo, Hiroíto de Moraes Joanides (1936-1992), Boca, de Flávio Frederico, não deixa igualmente de ser um cuidadoso retrato de um ambiente e de uma época.

Apesar de pronto desde 2010, e de ter sido premiado em dois grandes festivais nacionais – do Rio, em 2010, e Cine PE, em 2012 –, o drama custou a chegar aos cinemas brasileiros. Ironicamente, foi distribuído no exterior para cerca de 15 países antes de chegar ao Brasil, testemunhando por si mesmo o gargalo do circuito cinematográfico nacional que afeta particularmente a produção local. 

Contando com a interpretação empenhada de Daniel de Oliveira na pele de Hiroíto, o filme, com roteiro do próprio Frederico e de Mariana Pamplona, partindo de uma autobiografia escrita pelo personagem, o filme traça o perfil de um homem violento e contraditório. 

Filho de uma família de posses de origem grega, com um pai que admirava o último imperador japonês, Hiroíto teve boa formação cultural. Mesmo após a entrada na vida do crime, que se deu ainda na juventude, ele continuou um fiel fã da literatura, com preferências que iam de Charles Baudelaire a Jack London. 

Não raro, sua trajetória apresentou paralelos com as tragédias gregas, como a acusação de que teria assassinado o próprio pai – o que ele sempre negou. 

Mas foi na chamada Boca do Lixo, no centro velho da capital paulistana, que Hiroito estabeleceu sua fama, dominando a lucrativa exploração do baixo meretrício e do tráfico de drogas da região com um estilo impiedoso de lidar com os rivais e inimigos. Vários assassinatos rechearam sua ficha policial, que se estendia por dezenas de páginas. 

Filmado em boa parte no centro histórico de Santos, amparando-se na bela fotografia de Adrian Teijido (premiado no Rio), “Boca” define os limites do mundo claustrofóbico de Hiroito, desfrutando de luxo em sua casa, ao lado da mulher, a ex-prostituta Alaíde (Hermila Guedes, de “O Céu de Sueli”), mas também vivendo boa parte do tempo como fugitivo. 

Na pele do delegado Honório (Paulo César Pereio), cristaliza-se a figura de um policial corrupto, que prefere usufruir dos frequentes subornos a prender Hiroito – o que faz, de vez em quando, para manter as aparências. 

Acompanhando essa vertigem alucinante do auge e do declínio do personagem, Boca equilibra-se como perfil. Algumas belas sequências visuais, como a que retrata o Hiroito menino observando o Hiroito adulto pela janela de um automóvel, são particularmente eficientes para humanizar o personagem, sem satanizá-lo ou muito menos endeusá-lo. 

Tal como fizera em seu primeiro longa, Urbânia (2001), o diretor Flávio Frederico resgata, aqui ficcionalmente, uma parte do rico acervo de histórias que ainda assombram o centro velho de São Paulo, apesar da permanente tentativa de descaracterização imposta pela incessante reconstrução da cidade pela especulação imobiliária.

Neusa Barbosa


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