Na estrada

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Sinopse

Depois da morte do pai, Sal mora com a tia e pretende tornar-se escritor. Um dia conhece Dean Moriarty, um jovem ex-presidiário, que incendeia sua imaginação e o estimula a lançar-se em aventuras pelas estradas dos EUA em meados dos anos 50.


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Crítica Cineweb

25/06/2012

Levou oito anos para Walter Salles concluir o esperado Na Estrada, a adaptação de um dos maiores clássicos beat de todos os tempos. Assinado por Jack Kerouac, publicado em 1957, o livro se tornou uma das bíblias da contracultura, embalando gerações à procura de liberdade e experimentação na própria pele, numa era pré-internet.
 
Concorrente à Palma de Ouro em Cannes 2012, esta que é uma coprodução entre a França e o Brasil – apesar da produção executiva assinada pelo velho leão do cinema independente norte-americano, Francis Ford Coppola – dividiu opiniões em sua passagem pelo festival francês, o que certamente acompanhará também sua trajetória nos cinemas.
 
Conduzido com a habitual perícia de Salles, que leva consigo o roteirista portorriquenho Jose Rivera e o diretor de fotografia francês Éric Gautier, seus parceiros em Diários de Motocicleta (2004), o filme encharca-se da melancolia que é o tom predominante do livro, narrando as memórias do escritor iniciante Sal Paradise, o alterego de Kerouac - interpretado com intensidade na medida pelo ator britânico Sam Riley, o magnético intérprete do roqueiro Ian Curtis em Control.
 
É toda construída de nostalgia, portanto, esta memória das aventuras juvenis na estrada de Sal e seu amigo Dean Moriarty – este, por sua vez, o alterego do escritor Neal Cassady interpretado por Garrett Hedlund com uma voracidade que homenageia o jovem Marlon Brando, ator que chegou a ser pensado pelo próprio Kerouac para o papel, numa das muitas tentativas frustradas de adaptação para o cinema. Detentor dos direitos do livro desde 1979, Coppola, convidou, por exemplo, Jean-Luc Godard e Gus Van Sant, antes de Salles finalmente aceitar.
A tensão entre as diferenças profundas entre os dois personagens, unidos por uma mesma fome de vida, embalam uma vertiginosa troca de paisagens, de Nova York ao México, riscando na pele dos dois, e de vários companheiros de carona, um mapa de acontecimentos fortuitos. Como bebedeiras, canções, trabalhos eventuais, comida ruim ou nenhuma, a exposição às intempéries do clima, a camaradagem encontrada e logo perdida. E as mulheres.
 
Personagens marginais no livro, as mulheres ocupam um pouco mais de espaço na tela. A principal é Marylou (Kristen Stewart, deixando Crepúsculo para trás), a primeira mulher de Dean, que se torna uma espécie de galvanizador entre ele e Sam – já que Dean insiste em que ela vá para a cama com o amigo.
 
Esta espécie de amoralidade, que também se espalha ao consumo de drogas, além de bebidas, é um lembrete de um tempo bem mais libertário e libertino do que os dias atuais, cristalizando uma espécie de utopia em busca de uma vida sem limites que a chegada da maturidade baliza para Sal, mas não para Dean – que sonha em viver sem compromissos para sempre.
 
A segunda mulher de Dean, Camille (Kirsten Dunst, vivendo personagem inspirada em Carolyn Cassady), é justamente essa “voz da razão” na vida dele. Mãe de seus dois filhos, ela sinaliza seu desejo de parada e estabilidade. Mas não é essa a natureza de Dean.
 
Alguns personagens à beira do caminho introduzem um sabor especial, que desenha melhor essa época. O maior deles é Old Bull Lee (Viggo Mortensen), uma espécie de guru junkie diretamente calcado na figura do escritor William S. Burroughs, o autor de Almoço Nu que era o mais velho do grupo beat e, ironicamente, apesar das as viagens de todos os tipos que fez, foi o que morreu mais velho: 83 anos. Kerouac e Cassady morreram antes do 50 anos; o poeta Allen Ginsberg (no filme representado pelo personagem Carlo Marx, interpretado por Tom Sturridge), com 71.
 
Pequenas e marcantes são, igualmente, as passagens de três outras atrizes: Amy Adams, como Jane, mulher de Old Bull Lee, e alterego de Joan Vollmer, a primeira mulher de Burroughs que ele matou acidentalmente com um tiro, numa brincadeira de Guilherme Tell (episódio que não aparece em Na Estrada); Elisabeth Moss, como Galatea Dunkel, a jovem esposa abandonada pelo marido, Ed Dunkel (o estreante Danny Morgan), representando os personagens reais Al e Helen Hinkle; e a única brasileira do elenco, Alice Braga, como Terry, jovem mexicana com quem Sal tem um rápido caso quando colhe algodão na Califórnia e que evoca Bea Franco, que escreveu várias cartas a Kerouac, em 1947.
 
Steve Buscemi interpreta um homem que dá carona aos protagonistas e Terrence Howard (indicado ao Oscar por Ritmo de um Sonho), o jazzista Walter – traduzindo uma pegada mais jazzística do que roqueira na trilha sonora assinada pelo argentino Gustavo Santaolalla (outro parceiro de Salles em Diários de Motocicleta).
 
Não se trata de um filme catártico, e sim de um grande mergulho na melancolia, na perda, na passagem do tempo e das paixões. A câmera se instala na pele dos personagens e não larga mais seu turbilhão, seu frenesi pela vida, sua pulsão pelo movimento, pela experiência direta. Na Estrada realiza, assim, seu maior desafio: capta o aspecto fugaz do tempo presente, as relações humanas que se acendem e duram o instante de um fósforo, imperfeitas, passageiras, mas fundamentais.
 
Leia entrevista de Walter Salles
 
Saiba quem é quem no filme
 
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Neusa Barbosa


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Comentários:
  • 14/07/2012 - 11h07 - Por Otávio Neusa, eu estou MUITO ansioso pra ver esse filme. Li o livro e, embora o jeito de escrever do Kerouac me canse um pouco, achei a proposta do livro interessantíssima (e ao contextualizá-la naquele cenário dos movimentos da contracultura, fica ainda mais marcante!).

    Fiquei curioso para saber a opinião dos críticos que não gostaram do filme. Quais foram as observações que fizeram?
  • 17/07/2012 - 15h30 - Por Neusa Barbosa oi Otávio:
    uma parte dos críticos achou o filme "frio", que ele não dá conta de retratar aquela voragem da trajetória deles na estrada. Acharam o filme meio pudico, essas coisas.
    Eu não concordo, como vc vê pelo texto.
    Mas opinião é livre, cada um tem direito à sua.

    Depois me conte o que achou, quando vir.

    abs

  • 22/07/2012 - 17h34 - Por abel neusa o walter tem uma mania de higienisar suas histórias foi com che, abril despedaçado, central do brasil, o livroé infinitamente melhor que o filme e até a kristen stewart não paga mico como sempre até surpreende , mas no geral o filme é fraco para suas pretensões .
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