Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha

Ficha técnica


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Sinopse

Há décadas, o velho Bandido da Luz Vermelha está preso. Solitário em sua cela, ele se exercita, lê filosofia e pensa na vida. Enquanto isso, seu filho, Tudo ou Nada, começa a assaltar, seguindo o mesmo estilo do pai.


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Crítica Cineweb

10/05/2012

Filme emblemático do Cinema Marginal, O Bandido da Luz Vermelha (1968), de Rogério Sganzerla (1946-2004), marcou época, unindo contundência no comentário social em plena ditadura a uma estética suja, contrária ao embelezamento de um cinema clássico.

Foram necessários mais de 40 anos para o lançamento da sequência, Luz nas Trevas – A Volta do Bandido da Luz Vermelha, a partir de um roteiro deixado pelo próprio Sganzerla, que foi transformado num projeto familiar da empresa Mercúrio Filmes, integrada pela viúva de Sganzerla, Helena Ignez, e suas filhas Djin e Sinai. 

Filmado num presídio abandonado, na zona leste de São Paulo e dirigido por Helena Ignez e Ícaro Martins, o novo filme retoma o personagem original, inspirado num assaltante real, João Acácio Pereira da Costa, e interpretado em 1968 pelo ator Paulo Villaça – que morreu em 1992. 

Nesta sequência, além do novo intérprete – Ney Matogrosso, em seu primeiro papel principal no cinema -, o personagem está diferente. Os anos de cadeia o transformaram num homem mais amargo e reflexivo, que cultiva uma vaidade peculiar, exercitando frequentemente seus músculos e gastando seu tempo em leituras de filósofos, como Kant e Nietzsche.  

O protagonista encontra seu filho, outro bandido, chamado “Tudo ou Nada” (André Guerreiro Lopes), fruto de uma breve ligação com uma mulher (Sandra Corveloni). Djin Sganzerla interpreta a namorada dele, Jane, mesmo nome da namorada do bandido original, vivida em 1968 por sua mãe,  Helena Ignez. Desta vez, Helena vive outra personagem importante, Madame Zero. Sergio Mamberti, que fazia um taxista no filme original, aqui é outro marginal, Nenê Jr. E o delegado Cabeção é interpretado pelo músico Arrigo Barnabé. 

Apesar da grande distância que separa os dois filmes, o envolvimento de pessoas tão próximas ao diretor garante um criativo diálogo entre eles, que nunca cheira a ranço nem saudosismo. Luz nas Trevas destila a mesma ironia cáustica da obra de 1968, em comentários como “o crime só não compensa para os pobres” e “o que se leva desta vida é a vida que se leva”, marca registrada destes personagens acelerados, que só vivem no momento presente, esquivando-se das travas da moralidade.

Como o bandido original, “Tudo ou Nada” arromba casas usando sua lanterna e não só procura dinheiro e joias como comida e sexo. Na interpretação sob medida de André Guerreiro Lopes, um experiente ator de teatro, o novo marginal mantém a aura de uma maligna sedução, e o mesmo humor sinistro que contagiava o filme original.

Presente no cinema apenas em pontas – nos longas Sonho de Valsa e Diário de um Novo Mundo -, Ney Matogrosso transfere seu carisma do palco ao seu veterano protagonista, que olha a vida detrás das grades com uma sabedoria feroz. O animal enjaulado destila sua energia na poderosa cena final, que mostra Ney no alto de um prédio, contemplando a cidade de São Paulo e cantando seu velho sucesso do Secos e Molhados, “Sangue Latino”. 

Fruto de um lento trabalho de montagem, Luz nas Trevas  teve seu primeiro corte exibido em Portugal, em dezembro de 2009, no Festival de Santa Maria da Feira. De lá para cá, veio sofrendo modificações, passando em outros festivais – como a Mostra de São Paulo 2010 – até fixar-se na versão lançada agora em 2012. 

Neusa Barbosa


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