Girimunho

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País


Sinopse

Num vilarejo perdido no meio de Minas Gerais, o tempo e a vida das pessoas têm um ritmo diferente. Dona Bastú perdeu o marido há pouco, mas ele parece não querer abandonar o local. Enquanto isso, seus netos, que cuidam dela, fazem planos para o futuro.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

23/04/2012

Girimunho, que estreia depois de uma boa carreira por festivais internacionais (Veneza, Toronto, San Sebastian e Mar Del Plata, entre outros), não é apenas um filme sobre o tempo e a saudade. O primeiro longa de Clarissa Campolina e Helvécio Marins Jr. mistura documentário e ficção ao abordar a nostalgia do não vivido, a perda e a capacidade do ser humano de se redescobrir e reencontrar. Tudo isso no meio do mítico sertão mineiro, à la Guimarães Rosa, onde o real e o fantástico nem sempre se definem.
Quem são esses personagens que viveram diante das câmeras e agora estão na tela? Aos poucos, o filme dá dicas, mostra uma coisinha aqui, outra ali, mas nunca os mistérios são completamente desvendados, permitindo ao público compartilhar a vida dessas pessoas. Mais do que interpretar, as mulheres, homens, jovens e crianças vivem seus pequenos dramas cotidianos e enfrentam suas grandes dúvidas existenciais.
O que move a narrativa são pequenos ritos de passagem, desencadeados pela morte repentina do marido de Bastú, que passa a ser cuidada pelos três netos. A perda não se transforma numa experiência traumática ou numa epifania, é apenas uma perda. A vida segue. Não fosse pelo fantasma do marido que a assombra – ou talvez seja apenas a imaginação fértil dela.
Clarissa e Helvécio pintam essas pequenas vidas em forma de miniaturas que crescem por serem únicas, mas no fundo são também os dramas de todos nós. É impossível não pensar na frase do escritor russo Liev Tolstói ao assistir Girimunho: “Pinte o seu quintal e você estará pintando o mundo”. As cores locais do filme brasileiro ganham dimensões universais ao colocar o homem no seu centro.
O sertão mítico, quase irreal, de Girimunho teria muito também a dialogar com aquele de Terra deu, terra come, de Rodrigo Siqueira, filme de 2010, premiado no festival de documentários É tudo verdade, que tem o mesmo sertão de Guimarães Rosa como cenário, e também brinca com a encenação e o documental . Ambos caminham em cima dessa corda bamba, sem nunca pender para um lado, sempre em passos firmes e certeiros. Mas até que ponto importa o que é real, o que é reencenado? Praticamente nada.
É dona Bastú quem domina o filme. Sabiamente, os diretores não se deixam levar por saídas fáceis que transformariam a personagem em heroína ou algo parecido. Sua sabedoria não é um dom natural, é o fruto de sua existência, mas seu carisma é outra coisa. É instintivo, coisa que muitos atores e atrizes com anos de experiência, cursos e laboratórios não são capazes de copiar.
A bela fotografia de Ivo Lopes Araújo favorece não apenas as paisagens naturais e os personagens como também as festas populares que são valorizadas pelo trabalho de som competente, assinado por O Grivo e Ricard Casals.
Uma fala de dona Bastú (“O tempo não para. Ele que nos para”) é praticamente uma releitura de uma famosa frase de Machado de Assis (“Matamos o tempo, e ele nos enterra”). E o tempo é o senhor, às vezes gentil, às vezes cruel, que se faz presente em Girimunho. Aqui, o tempo é como o vento, às vezes lento, às vezes nem tanto. E o filme o absorve, girando num ritmo próprio.

Alysson Oliveira


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