Cabra marcado para morrer

Ficha técnica

  • Nome: Cabra marcado para morrer
  • Nome Original: Cabra marcado para morrer
  • Cor filmagem: Colorida e Preto e Branco
  • Origem: Brasil
  • Ano de produção: 1985
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 119 min
  • Classificação: Livre
  • Direção: Eduardo Coutinho
  • Elenco:

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Sinopse

Em 1964, Eduardo Coutinho inicia um filme de ficção, em que camponeses reencenam o drama de João Pedro Teixeira, líder camponês paraibano assassinado dois anos antes. A ditadura interrompe as filmagens e a família de João Pedro se dispersa. 17 anos depois, o documentarista encontra as pistas da viúva, Elizabeth Teixeira, e retoma a história.


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

29/03/2012

Cabra Marcado para Morrer é, por muitas razões, um filme que virou mito. Sem deixar de ser um grande, inesquecível, imperdível filme.

Quando o projeto começou, no início dos anos 60, pensava-se numa obra de ficção, em que camponeses reencenariam uma história real, a do líder camponês João Pedro Teixeira, fundador da Liga Camponesa de Sapé (PB), assassinado a mando de latifundiários, em 1962.
 
Mais de uma vez, o projeto foi atravessado pela vida e pela História. Quando finalmente o cineasta Eduardo Coutinho teve os recursos para a filmagem, produzida pelo CPC da UNE e o MCP (PE), já corria o ano de 1964. As filmagens foram interrompidas pela ditadura que baixou sobre o país, houve imagens e câmeras perdidas, membros da equipe presos ou fugitivos. Uma parte do material filmado milagrosamente se preservou. Por isso, apenas, Cabra... já entrava no território da lenda.
 
A obra sobreviveu a peripécias que, caso pertencessem à ficção, pareceriam inventadas – caso de latas do filme escondidas debaixo da cama de um general, pai do cineasta David Neves, negativos salvos por terem sido enviados a revelar no Rio e ocultos na Cinemateca do MAM sob um título falso, A Rosa do Campo.
 
Mais dramática do que a história do próprio filme, sem dúvida, foi a diáspora imposta pela ditadura à família do líder assassinado – sua mulher, Elizabeth Teixeira, fugida também com nome falso para o interior do Rio Grande do Norte, carregando apenas um dos 11 filhos. Os demais foram entregues aos cuidados do avô e dos tios, espalhando-se depois por vários estados do Brasil.
 
Na cópia agora impecavelmente restaurada da produção, originalmente concluída em 1984, reencontram-se os vários tempos desta longa e trágica saga, símbolo das incertezas e contradições da nação, mas também testemunho da resistência de seus habitantes e de seus artistas.
 
Por muitas razões, este Cabra... tornou-se um marco, inclusive inaugural da carreira do mais famoso documentarista do Brasil (que aqui abandona o Globo Repórter). Uma delas, a maneira como os vários tempos convivem dentro da trama – as imagens restantes do filme inicial de 1964; as sucessivas retomadas do projeto, pela teimosia de Coutinho, no início dos anos 80, após a abertura política proporcionada pela anistia de 1979;  e agora, em 2012, as cores reencontradas na restauração, o som audível como nunca.
 
No reencontro de Elizabeth e na sua progressiva transformação diante da câmera, ao reencontrar a identidade sufocada da antiga líder camponesa, o filme encontra sua espinha dorsal, incorporando ainda o diretor-personagem, com um Coutinho, ainda de cabelos pretos, em cena, uma inovação tremenda nos documentários dos anos 60.
 
Nos sobressaltos que interrompem as filmagens, seja em 1964, seja no início dos anos 80, a narrativa encontra um fio, reassentando as dores, as cicatrizes e afirmando a sobrevivência não só de seus personagens e diretor, como a do próprio filme, que assume em seu discurso seus percalços e hesitações.
 
O próprio Coutinho aqui se sintetiza e antecipa – estão impressos nos fotogramas do Cabra... o Coutinho militante do CPC de 1964; o Coutinho forjado no Globo Repórter, que ali conheceu melhor o Nordeste; o Coutinho mestre da arte da conversa, que amadurecia o futuro diretor de Santo Forte (99), Edifício Master (2002), Peões (2004)e Jogo de Cena (2007).
 
Se por mais nada fosse precioso, como de fato é, este Cabra... mereceria o adjetivo por condensar com tal autenticidade as dimensões individual, política e afetiva de todos os envolvidos. E assim atravessa a fronteira em que o documentário se torna vida e se transforma, ele mesmo, em História.

Neusa Barbosa


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