As Horas

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Crítica Cineweb

24/02/2003

Seguindo delicadamente nas pegadas do livro que o inspirou, As Horas, de Stephen Daldry, escapa da primeira armadilha que costuma colher as adaptações literárias, ou seja, a de tecer um mundo cinematográfico que seja uma mera reprodução empobrecida de um texto original brilhante - ainda mais em se tratando de uma obra premiada como a do escritor Michael Cunningham, que colecionou desde o Prêmio Pulitzer e o PEN/Faulkner à distinção de ser eleito o livro do ano (de 1998) pelos jornais The New York Times , Los Angeles Times e Chicago Tribune, entre outros.

Daldry venceu a contento o desafio de criar para seu filme, que empresta o mesmo nome do livro, uma voz original que parte de suas páginas mas é coisa inteiramente diversa, reconstituindo com imagens e diálogos o sólido arcabouço das descrições minuciosas do escritor Cunningham. Tudo o que em Cunningham era discurso indireto vibra nos diálogos precisos de As Horas, o filme, e constrói seu ritmo através de uma habilidosa montagem (de Peter Boyle) e da música de Philip Glass - que, embora um tanto insistente em mais de um momento, é eficaz na edificação de uma moldura emocional crescente, chave para a eficiência dramática tanto do livro quanto do filme.

Essa montagem é básica para que a clareza da narrativa se mantenha apesar do perigo inerente de acompanhar os três eixos temporais paralelos da história original. O primeiro, nos anos 20, no subúrbio londrino de Richmond, em que a escritora inglesa Virginia Woolf (Nicole Kidman), recuperando-se de duas tentativas de suicídio e uma severa depressão, escreve o romance Mrs. Dalloway. Neste livro, descreve um único e intenso dia em que a protagonista, Clarissa Dalloway, enfrenta a ruptura entre a aparência de sua vida burguesa ordenada e feliz e a amargura por sonhos desfeitos no passado, o que faz a autora contemplar a possibilidade da morte de sua heroína. O segundo, na Los Angeles do final dos anos 40, em que uma dona-de-casa grávida, Laura Brown (Julianne Moore), lê o livro de Woolf, encarando ela mesma um turbilhão interior semelhante ao da senhora Dalloway. Finalmente, na Nova York de hoje, a editora Clarissa Vaughn (Meryl Streep) prepara uma festa para seu amigo poeta e doente de AIDS (Ed Harris), mergulhada, ela também, na mesma dicotomia entre essência e aparência que implode Virginia, Laura e a Clarissa-personagem de Mrs. Dalloway.

Refinado e intenso, As Horas corresponde, assim, a uma façanha bastante inesperada do diretor britânico Stephen Daldry, um profissional oriundo do teatro que estreou no cinema a bordo da modesta comédia dramática Billy Elliott (2000), que foi supervalorizada por receber então três indicações ao Oscar, inclusive a de melhor diretor. Neste segundo filme, ele alcançou não só bem mais indicações ao Oscar (nove no total, inclusive as de melhor filme e diretor), como alinhavou atrás de si uma aura de seriedade que com certeza terá projeções em sua carreira futura.

Embora o texto original de Cunningham seja até certo ponto cinematográfico, pelo entrelaçamento constante das histórias das três mulheres, reconstruir sua trajetória na tela não constituiu tarefa tão simples. A razão principal está na necessidade de sedimentar um equilíbrio entre a contenção exigida pelo tom de uma narrativa predominantemente intimista e a alta dramaticidade que se ergue dos pequenos detalhes de cada uma delas numa espiral crescente - e que não pode transbordar antes do segmento final, sob o risco de desandar toda a mistura num mar de pieguice. Isso nunca acontece, contando um ponto altamente positivo para as escolhas do diretor.

A primeira e mais óbvia destas opções acertadas é, sem dúvida, o elenco. As três protagonistas já vêm acumulando prêmios individuais - como Nicole Kidman, dona de um Globo de Ouro e um Bafta, o Oscar britânico - como um coletivo, o Urso de Prata para o trio feminino principal no Festival de Berlim/2003, que foi talvez o mais justo, em vista do afinamento de suas interpretações, que ocorrem como um solo de cada atriz, já que elas trabalham separadamente em cena (exceto por uma única seqüência reunindo Streep e Moore).

Mas seria extremamente redutor elogiar apenas o trio principal. O time de coadjuvantes é uma seleção de atores que nem sempre costuma brilhar nos filmes de que participa, mas aqui consegue atingir notas bem altas do que de costume. Este é o caso, por exemplo, dos americanos Jeff Daniels, um habitué de comédias de segunda linha, como Débi & Lóide, Allison Janney e do quase onipresente John C. Reilly - que atua em nove entre dez filmes de Hollywood, como no recente Gangues de Nova York e no ainda inédito Chicago, e, mesmo assim, permanece um nome que a maioria dos espectadores não memoriza, assim como a talentosa Allison (que atuou em Segredos do Poder e Beleza Americana).

Do elenco britânico, não há como deixar de destacar Miranda Richardson, no papel de Vanessa Bell, a irmã de Virginia Woolf, e o do desconhecido Stephen Dillane. Na pele de Leonard Woolf, o atormentado marido da escritora, ele vibra em momentos como a cena na estação de trem, em que, numa única troca de olhares com a mulher, traduz toda a angústia de sua desesperada tentativa de protegê-la do irreversível complexo de autodestruição que finalmente a levaria à morte em sua terceira tentativa de suicídio, mergulhando com pedras no bolso no rio Ouse, em 1941.

Cineweb-26/2/2003

Neusa Barbosa


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