A pele que habito

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Sinopse

Robert Ledgard é um médico que pesquisa a criação da pele artificial. Ele vive obcecado por tragédias envolvendo sua mulher e a filha. E mantém em sua casa uma estranha prisioneira.


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Crítica Cineweb

03/11/2011

Em A Pele que Habito, que concorreu à Palma de Ouro em Cannes este ano, Pedro Almodóvar dialoga um tanto esquizofrenicamente com os dois lados de sua obra intensa e carnal, que vem construindo desde seu primeiro longa, Pepi, Luci, Bom e outras garotas de montão (1980).
 
Convivem dentro da história tanto o diretor iconoclasta da primeira fase, em que realizou filmes aguerridos como Labirinto de Paixões, Matador e A lei o desejo, numa época em que não dispunha ainda de orçamentos que lhe garantissem toda qualidade técnica, quanto o cineasta maduro da fase mais recente, de algum modo obcecado por explicitar suas referências, como se viu no recente Abraços Partidos.
 
O desejo de uma volta à pulsão do início de sua carreira evidencia-se igualmente no retorno do ator Antonio Banderas, longos 22 anos depois de Ata-me!.
 
Como raríssimas vezes antes (a outra ocasião, em Carne Trêmula), Almodóvar inspirou-se em obra alheia para compor seu roteiro, neste caso, o livro Mygale, de Thierry Jonquet, que leu há 10 anos. Dele guardou a figura do pai que conduz uma vingança, aqui por um estupro cometido contra sua filha, temperando-o com elementos científicos ligados a manipulações genéticas – um assunto que soa estranho no universo almodovariano, mas estranheza é a matéria-prima desta história.
 
Banderas é esse pai, Robert Ledgard, um cirurgião plástico que pesquisa a criação de pele artificial, depois de perder a mulher, gravemente queimada num acidente de automóvel. Na verdade, há outros fatos ligados à morte da mulher, bem como ao suposto estupro da filha (Blanca Suárez). A vingança contra o estuprador (Jan Cornet) é o segmento que reserva os elementos mais drásticos e bizarros. É quando entra em cena Vera (Elena Anaya, que já trabalhara com o diretor antes em Fale com Ela), uma mulher de identidade misteriosa, que é ao mesmo tempo cobaia e prisioneira do cirurgião num luxuoso bunker, onde ela é vigiada e atendida 24 horas por dia por Marilia (Marisa Paredes).
 
Há uma referência direta ao filme Os olhos sem rosto (1960), do francês Georges Franju, um parentesco que Almodóvar assume sem problemas, e também ao famoso personagem do dr. Frankenstein, de Mary Shelley – já que em todos os casos há um homem da ciência ultrapassando limites, brincando de Deus não só por mera ambição, mas em nome da primazia de uma conquista, ou da superação de uma culpa insuportável.
 
Admitidas todas as inspirações e os cruzamentos de gêneros – e Almodóvar não nega que hoje o thriller é seu favorito, firmando uma disposição em ser uma espécie de Hitchcock latino de nossos dias -, há todos os indícios da busca de uma nova transgressão, numa chave diversa daquela que marcou seus primeiros filmes. Neste sentido, nenhum intérprete mais adequado do que Antonio Banderas, impregnado do horror frio que percorre o filme, em que personagens, como Robert e Marilia, são capazes de dizer as coisas mais criminosas como se fossem normais. Com a insensibilidade que só os psicopatas podem ter.
 
Esta frieza parece estranha no ninho de Almodóvar, e o que é pior, algo que não resulta totalmente convincente. Na revelação da verdade sobre Vera, Almodóvar ultrapassa alguns limites, perde a medida e toca a ponta do mau gosto. Falta um toque da sua boa e velha ironia, entre outras coisas. Por isto, os fãs de melodramas com outra temperatura, como Tudo sobre Minha Mãe, Fale com Ela e Volver, poderão, é certo, sentirem-se traídos pela nova investida do diretor.
 
Um outro problema está nas referências ao Brasil, especialmente no desenho do personagem, Zeca/Tigre (o ator espanhol Roberto Álamo), que resulta na caricatura da caricatura. Chega a ser ofensivo, ainda mais pela intimidade que Almodóvar tem com o Brasil, país que visita regularmente, que o cineasta formule um personagem grotesco nestes termos. O outro vestígio do país, este mais positivo, é a música Pelo Amor de Amar, cantada em português pela espanhola Ana Mena.

Neusa Barbosa


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Comentários:
  • 05/11/2011 - 22h05 - Por Otávio (Pessoal, eu vou mencionar coisas do filme abaixo, então, quem não o viu, recomendo que não leiam)

    Poxa, Neusa, eu confesso que gostei do filme e não vi nele "apenas" um thriller. Acredito que existiu uma preocupação do diretor em trazer uma (boa) metáfora em relação ao homossexualismo. A idéia de um "ser" que habita um corpo cujo orgão sexual não indica sua sexualidade foi uma destas questões metaforizadas no filme. Detalhe: não foi qualquer personagem mas sim um personagem machista que sentiu na pele o que é isso, um personagem que assediava a funcionária da mãe mesmo ela sendo lésbica e tratou daquele jeito a filha do médico.

    Existem diversos outros elementos que a meu ver são metafóricos: para mim é bem possível pensar o médico como Deus, ou seja, o culpado pela contradição sexo/sexualidade e então seu assassinato teria igualmente um significado "a mais". Aliás, Almodovar é ateu? hehehe

    Agora, tenho que concordar que tem coisa no filme que "sobra". O Tigre, francamente, ou deveria ter sido melhor desenvolvido ou simplesmente eliminado da história (afinal, ele era tão indispensável? Francamente eu acho que não). E a história da mãe da menina... Sei lá.

    Parece meio arrogante falar que o Almodovar deveria fazer "isso e aquilo", mas a impressão que eu tive é que ele foi "prolixo" ao contar a história rsrs.

    Um abraço, Neusa!
  • 07/11/2011 - 15h50 - Por Neusa Barbosa oi Otávio:

    Respeito todas as suas opiniões e te agradeço por compartilhá-las.

    Mas não acho, por exemplo, que se sustente bem essa ideia de uma metáfora para falar de um conflito entre corpo/sexualidade, não. Até porque o Almodóvar falou disso inúmeras vezes, bem melhor do que aqui, na minha opinião.

    Pra mim, essa metáfora não se sustenta, entre outras coisas, porque esse conflito entre corpo e sexualidade da personagem da Elena Anaya encontrou isso à força, né? Isso foi imposto a ela, não nasceu de nenhum desejo dela.

    O Tigrinho é horroroso, tosco, dispensável...Inexplicável!

    bj

    Neusa
  • 09/11/2011 - 18h02 - Por abel NEUSA achei o filme longe do almodóvar melodramático e exagerado, capaz de passar da tragédia pra comédia num triz, o filme não é ruim como todos o filmes dele até agora pós oscar, em cannes onde ele nunca foi premiado havia uma expectativa que frustrou muita gente e fez com que a árvore da vida fosse premiada. o filme tem sérios problemas de ritmo o Antonio Bandeiras que não trabalhava com ele desde áta-me esta deslocado e frio, a outra atriz não vejo nela a nova musa dele como a Pénelope cruz a única que coisa que gostei foi da Marisa paredes , mas ainda sim não achei um fracasso retumbante talvez precise de uma segunda chance revendo o filme pra redescobrir coisas que deixaram passar. meus almodóvar favoritos são:
    1-fale com ela
    2-tudo sobre minha mãe
    3-carne trêmula
    4-volver
    5-mulheres a beira de um ataque de nervos
    6-a lei do desejo
  • 11/11/2011 - 00h36 - Por Fernanda Aos leitores: tentei escrever sem spoilers, mas eles foram inevitáveis... então...

    Neusa, você foi bem dura na crítica. A função na história e a caracterização do Tigre como brasileiro foi bem medíocre, isso é verdade, e mesmo um estrangeiro poderia ter feito um brasileiro minimamente aceitável. Ainda mais, depois que o Javier Bardem foi bem convincente como um brasileiro no Comer, Rezar e Amar.
    E se você pensar bem, a Marisa Paredes, apesar de ótima, também não é um personagem essencial para a história. Minha teoria é que o Almodóvar queria muito tê-la em seu filme, como uma obrigação moral. Daí enfiou à força na história algo para trazer um conflito para a Marisa Paredes, e que também desencadeasse um momento de virada para a Vera. Mas no fim o que aconteceu foi um personagem Tigre mal escrito e encenado, um desastre...
    E quanto à frieza que você comentou, eu confesso que gostei da falta de histeria típica dos personagens do Almodóvar. Enfim, acabei de assistir ao filme e ainda estou digerindo as informações, mas nessa primeira impressão, o geral me agradou muito... as falhas ficam como licenças poéticas...
  • 11/11/2011 - 09h12 - Por Neusa Barbosa oi Fernanda:

    Talvez eu tenha sido dura porque do Almodóvar, sendo o cineasta que é, sempre espero mais. Acho que ele não deu o melhor aqui.

    Concordo que a maravilhosa Marisa Paredes está meio sem função, meio enfiada à força na história - outra inconsistência do roteiro, como aquele Tigrinho tosco (mesmo que não fosse brasileiro, me incomodaria).

    Da frieza, não gosto não... Pra mim, Almodóvar é sinônimo de calor, energia, até exagero.Eu sinto assim.

    Na minha lista de favoritos, Abel, entram sempre "Tudo sobre minha mãe","Fale com ela", "Carne Trêmula","Volver", "Matador", "Mulheres á beira de um ataque de nervos"...

    Enfim, vou esperar o próximo.

    bjs

  • 20/11/2011 - 02h00 - Por Ana Paula Saí do cinema gostando "7". No caminho de volta passei a gostar "6". Chegando em casa descobri que gostei "5". Vou parar por aqui, pois dá dó gostar menos do que isso do Almodóvar. Como bem disse a Neusa, vamos esperar pelo próximo.
  • 05/12/2011 - 00h58 - Por Michelle Ruim, horrível, nojento, coisa de mente doentia...
  • 14/12/2011 - 10h08 - Por Eron Stein O filme é brilhantemente assustador! Almódovar se renova a cada filme!F
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