Lavoura Arcaica

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Documentário "Nosso Diário"

Conversa entre Fernando Solanas e Andre Paquet


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Crítica Cineweb

13/01/2003

Radical na literatura, Lavoura Arcaica, o livro do escritor paulista Raduan Nassar encontra, na transposição cinematográfica do cineasta estreante Luiz Fernando Carvalho, um retrato não menos doído, um grito não menos primal do que o da literatura, em imagens primorosamente construídas pela fotografia preciosa do veterano Walter Carvalho (Central do Brasil).

Os diálogos transpõem, quase palavra por palavra, o texto primoroso de Nassar, um autor bissexto, apesar do talento raro. Nesses 26 anos que nos separam do lançamento do livro, o escritor lançou apenas mais outros dois - Um Copo de Cólera, adaptado para o cinema em 99 por Aluizio Abranches, e o livro de contos Menina a Caminho. Depois, calou-se num silêncio criativo que seus leitores só podem lamentar.

Cineasta com altas ambições artísticas - já visíveis em seu trabalho para a TV, como a minissérie Os Maias, a partir da fonte literária de Eça de Queirós - Carvalho lança-se a um mergulho profundo neste filme. Para começar, por recompor como diálogo o que no texto de Nassar é narração. Sendo o que é, um texto elaborado, não tornou nada fácil a tarefa dos atores ao declararem suas falas. Um esforço, que, às vezes, se sente em cena, independentemente do inegável empenho de todo o elenco.

Nesse sentido, Lavoura Arcaica, o filme, comete o mesmo pecado de Um Copo de Cólera. Embora indiscutivelmente mais modesto, o filme de Abranches era, como este, excessivamente reverente à literatura de Nassar. Os dois cineastas, por coincidência em seus primeiros filmes, curvaram-se à presença poderosa deste pai artístico que guiou seus primeiros passos no cinema.

Carvalho tem, sobre Abranches, a vantagem de dominar incrivelmente melhor a gramática das imagens, sendo ele mesmo o autor da montagem de seu filme. Assim, não poucas seqüências deste belo filme ficam indelevelmente impressas na memória dos espectadores: André (Selton Mello) apaziguando seu furor sexual com seus pés na terra molhada, a festa da família, a brincadeira amorosa da mãe (Juliana Carneiro da Cunha) com o filho ainda menino (Pablo Câncio), a dança de Ana (Simone Spolidoro) desbloqueando sua libido com os pertences da prostituta (Denise Del Vecchio), a fábula do faminto traduzida num severo preto-e-branco, sem contar o confronto entre o pai (Raul Cortez) e o filho desgarrado.

O melhor de tudo é que estas belas imagens, para as quais Carvalho busca inspiração inclusive em quadros famosos - como não ver Abapuru, de Tarsila do Amaral, no Selton encolhido diante do irmão (Leonardo Medeiros)? - não estão no filme apenas a serviço da decoração da cena. Cada uma delas, assim como a precisa iluminação permeada de sombras, funciona como elemento dramático e narrativo e delineia o caminho da história que poucos segredos trará, em essência, já que o livro é bastante conhecido.

As surpresas para o espectador que já tenha lido a parábola trágica de Nassar serão de tom e coragem. Carvalho vai até mais longe do que Raduan em alguns detalhes, introduzindo canções e falas em árabe para reconstruir o ambiente da família de origem libanesa que está no centro do drama - recurso a que nem o escritor recorreu textualmente no livro, exceto pela palavra "maktub" (está escrito). Carvalho não recua, também, em mostrar abertamente a pulsão que move seu protagonista, abrindo o filme com uma cena de masturbação.

Com certeza, todo o elenco de Lavoura Arcaica entregou-se sem rodeios. Todos os atores isolaram-se por seis meses numa fazenda em Minas Gerais, na pequena localidade de São José das Três Ilhas, mergulhando num laboratório que incluiu atividades campestres, como arar a terra, ordenhar vacas, fazer o pão, além de aprender árabe e dançar como os personagens do livro. O resultado se traduz nesse clima veraz com que cada um impregnou seu papel. Com certeza, nunca se viu o habitualmente bonachão Selton Mello tão transfigurado e trespassado de angústia e de dor como aqui. Raul Cortez, presença rara nas telas nacionais, incorpora um patriarca inesquecível - a ponto de se lamentar que Carvalho não tenha ousado criar mais cenas para ele no filme.

Outro atrevimento que o diretor-roteirista não teve foi o de criar mais falas para a personagem crucial de Ana - e o silêncio da moça na cena crucial da capela fica parecendo uma lacuna dramática. Mais uma vez, menos fidelidade ao livro poderia render ainda mais qualidades a um filme tão poderoso e tão digno de elogios.

Prêmios já começam a chover no caminho do filme: melhor contribuição artística no Festival de Montreal/2001, troféu especial do júri no Festival de Biarritz, melhor longa-metragem nacional para o público na última Mostra BR de Cinema, em São Paulo. Que um veredito positivo do grande público possa ser a consagração que falta à ambição, ao rigor artístico e à defesa da imaginação do novo cineasta - qualidades que sempre serão bem-vindas ao cinema de qualquer país.

Neusa Barbosa


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