A vida durante a guerra

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Sinopse

Separada de seu marido, Joy viaja para a Flórida para visitar a mãe e a irmã, Trish. Esta procura um novo amor e mente a todo mundo dizendo que o marido pedófilo morreu. Na verdade, ele está preso. Enquanto, isso, o filho questiona as pessoas sobre a capacidade de perdoar e esquecer.


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Crítica Cineweb

12/11/2010

O que vem depois de felicidade? Na linha do tempo de Todd Solondz é a guerra, ou melhor, A vida durante a guerra, uma comédia melancólica e agridoce, na qual o diretor retoma os personagens de seu filme mais famoso, Felicidade, alguns anos depois. O filme é uma combinação de assuntos delicados, como pedofilia, terrorismo, conflitos raciais, tudo para perguntar se é possível perdoar e esquecer.
 
Ganhador do prêmio de melhor roteiro no Festival de Veneza de 2009, A vida durante a guerra começa numa cena idêntica a Felicidade. Joy – agora interpretada por Shirley Henderson – está num restaurante com seu marido. Ele lhe dá um cinzeiro antigo que comprou no eBay, com o nome dela gravado – que significa “alegria”. A conclusão aqui, no entanto, é bastante diferente daquela do primeiro filme. Todos os personagens, como é comum nos filmes de Solondz, são infelizes até a exaustão. A possibilidade de felicidade é efêmera.
 
A visão que o diretor tem dos Estados Unidos contemporâneo – que se solidifica em filmes como Benvindo à casa de bonecas e Palíndromos – não é negativa ou desprovida de esperanças. É, na verdade, triste, cruel, mas bastante real. Ataques terroristas são um assunto nas entrelinhas e, às vezes, explícitos nesse filme. Mas Solondz olha esses acontecimentos como um catalisador para os americanos compreenderem a si mesmos e resolverem seus próprios problemas, antes de voltarem os olhos para territórios distantes de suas fronteiras. É mais ou menos isso que diz o pequeno Timmy (Dylan Riley Snyder), talvez o personagem mais sensato, embora condizentemente ingênuo para sua pouca idade.
 
Os personagens de Felicidade são interpretados por outros atores. Isso permite não apenas mostrar que envelheceram de forma diferente, como também ampliar o leque de possibilidades e interpretações para cada um. As irmãs de Joy são Trish (Allison Janney) e Helen (Ally Sheedy). A primeira é mãe de Timmy que diz para todos ser viúva, embora seu marido, Bill (Ciarán Hinds), cumpra pena por pedofilia. Ela tenta encontrar um novo companheiro, mas confessa que só se casará se os filhos o aprovarem.
 
Joy é casada com Allen (Michael K. Williams) que, com a ajuda dela, tenta se livrar de sua tara, que envolve chamadas telefônicas anônimas. Ela, por sua vez, recebe visitas constantes de Andy (Paul Reubens), um sujeito que ela dispensou num restaurante, há alguns anos, depois de tê-lo presenteado com um cinzeiro antigo com seu nome gravado (essa é a primeira cena dos dois filmes). Para se separar temporariamente do marido, Joy viaja para a Flórida onde reencontra a mãe (Renée Taylor) e as irmãs.
 
A ansiedade dos Estados Unidos pós-11 de setembro, que o filme evoca, começa com o título e ecoa a caça às bruxas – de obras como As bruxas de Salem. A partir das explicações de sua mãe, Timmy vê um pedófilo em potencial em praticamente todos os homens que se aproximam. De pedófilo para terrorista, na cabeça de Timmy, parece não existir muita distância. O mundo de Solondz é habitado por gente estranha que declama frases esquisitas, mas, ao menos tempo - ou, talvez, por isso mesmo –, seja tão parecido com o nosso mundo. A questão do “perdoar e esquecer” ecoa.
 
Em A vida durante a guerra, Solondz relembra o que há de melhor no cinema independente norte-americano, sem cair nos maneirismos que inundaram o gênero na última década. E, novamente, mostra-se astuto na criação de diálogos e na observação que faz da família ocidental contemporânea. “Olho por olho… e então vem o perdão”, diz um personagem.  
 
Um dos personagens diz a Timmy: “Você seria capaz de perdoar alguém que te bateu na cara? Um terrorista? Hitler? Seu pai?’. O que ele tenta provar – e consegue – é que é impossível perdoar e esquecer. Um círculo vicioso se forma entre ações e reações. E A vida durante a guerra nada mais é do que pessoas tentando perdoar e esquecer, se empenhando numa tarefa quase inútil.

Alysson Oliveira


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