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Crítica Cineweb

22/02/2003

Tata Amaral é uma diretora que compõe seu cinema em duetos trágicos e não tem medo de que esta seja uma música que precisa encontrar ouvidos atentos. Ela requer de seus espectadores, em primeiro lugar, coragem - a palavra que tem a dizer é dura e nem todo mundo quer ouvir. Foi assim em seu primeiro filme, Um Céu de Estrelas (96), um retrato claustrofóbico da paixão doentia entre uma cabeleireira (Leona Cavalli) e um desempregado (Paulo Vespúcio). Neste seu segundo trabalho, a história é centrada nas razões de uma mulher, Selma (Laura Cardoso), uma enfermeira que foi mãe tardia e, aposentada, vive para cuidar do filho de 20 anos, Raí (Fransérgio Araújo). Um pequeno círculo familiar em que a tragédia se instala com a naturalidade e a violência de um vírus.

O ambiente da casa de classe média baixa, no bairro paulistano da Lapa, no início, é acolhedor como um ninho. A mesa do café comporta uma toalha limpa e passada, pão fresquinho, margarina fora da geladeira, café com leite quente derramado na xícara no momento exato da chegada de Raí. Este casulo cuidadosamente tecido por Selma em torno do filho é uma muralha também para ela. Selma vê Raí através de um véu, como um menino que precisa de toda a proteção, mas também como um homem que ela não tem mais há muito tempo. Raí faz o jogo da sedução. Banca o menino com cara de namorado, enternece o tom da voz e adia sempre a procura de um emprego incerto nos anúncios de jornal.

A desarrumação gradativa da mesa do café, onde Raí pára cada vez mais rápido, é um sinal da desagregação desta pequena ordem familiar. O rapaz tem uma vida dupla, de que a mãe sequer desconfia. Passa cada vez mais tempo fora de casa, até à noite. Um dia, aparece com um colega ferido, pedindo socorro à mãe.

Cineasta intensa, Tata capricha no retrato dos detalhes, estica este cordão umbilical entre Selma e Raí ao ponto da ruptura. Quanto mais vê deste novo filho que tem pela frente, menos a mãe entende. No seu universo emocional, não cabe a realidade de quem saiu do seu ventre e tomou rumos de que ela nem sequer suspeitaria. Desta trama minimalista, compõe-se um filme autoral, capaz de suscitar muitas leituras. Uma viagem em que o proveito, para o espectador, só vem pela entrega total.

Neusa Barbosa


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