Contos da era dourada

Ficha técnica


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Locais de filmagem


Sinopse

Mutretas, mercado negro, burocracia e outros dilemas dos cidadãos romenos sob o comunismo fornecem a matéria-prima dos seis episódios desta comédia.


Extras

Idioma: romeno
Legenda: inglês e português
Formato da tela: fullscreen
Extras: menu interativo -seleção de cenas


Nota Cineweb

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Crítica Cineweb

08/10/2010

Nesta curiosa comédia romena, há aspectos com os quais o espectador brasileiro pode identificar-se de imediato. O principal deles: a criatividade com que pessoas comuns desenvolvem esquemas para contornar os absurdos do cotidiano, no caso do filme, na época do regime de Nicolae Ceausescu (1918-1989). Na prática, Contos da Era Dourada é um estudo bem-humorado sobre o “jeitinho” romeno.
 
Uma fina ironia percorre os seis episódios desta versão que chega ao Brasil. No Festival de Cannes, em maio, foram projetados apenas cinco segmentos, cuja ordem de exibição também variou ao longo das sessões, o que não acontecerá aqui.  Cada um deles é baseado em chamadas “lendas urbanas” do período que o governo comunista romeno definia como “a era do ouro”. Eram os anos 1980, quando os cidadãos daquele país se debatiam com problemas críticos, como desabastecimento, limitações econômicas, falta de perspectivas, conflitos com a burocracia e o temor da repressão policial sempre à espreita.
 
Todos esses temas, com potencial para um enfoque mais dramático, são filtrados pelo humor e por uma indisfarçável compaixão pelos personagens, sejam eles camponeses, trabalhadores urbanos ou até membros do todo-poderoso Partido Comunista. É esse o fio condutor dos roteiros, assinados pelo premiado Cristian Mungiu (o vencedor da Palma de Ouro em Cannes em 2007, pelo drama 4 meses, 3 semanas e 2 dias), que integra também o grupo de cinco diretores deste trabalho coletivo – ao lado de outros quatro novos cineastas, Hanno Höfer, Constantin Popescu, Ioana Uricaru e Razvan Marculescu.
 
Mais longo e possivelmente também mais sombrio dos episódios (36 min), A lenda dos vendedores de ar, acompanha um golpe montado pelo malandro Burghi (Radu Iacoban) e aperfeiçoado por sua nova amiga, a estudante Crina (Diana Cavalliotti). Dizendo-se representantes de um ministério, eles convencem moradores de prédios de que estão analisando amostras de ar, contaminadas por uma onipresente poluição, independentemente da região da cidade a que se dirijam – detalhe que sinaliza as precárias condições ambientais do país.
 
O objetivo da dupla é, afinal, prosaico: obter dinheiro com a venda das garrafas que conseguem dos moradores, contendo as supostas “amostras” de ar contaminado. O episódio é o retrato de um tempo ufanista e de uma moralidade hipócrita - embora não se pretenda fazer aqui um julgamento muito duro dos dois malandros, que arriscam a prisão todos os dias.
 
Estrelado por Vlad Ivanov (o aborteiro de 4 meses, 3 semanas e 2 dias) o episódio A lenda do chofer das galinhas explora os dilemas do desabastecimento e do ativo mercado negro de alimentos num país dominado pela onipresença do planejamento estatal e o racionamento de gêneros alimentícios.
 
Ivanov interpreta Grigore, motorista de uma avícola, que transporta frequentemente uma enorme quantidade de galinhas vivas até um porto. Parando sempre num restaurante de estrada, apaixona-se pela dona, Camélia (Tania Popa), e deixa-se convencer por ela a roubar os ovos postos pelas galinhas pelo caminho, desviando o lucro da companhia.
 
Em todos os episódios, o aspecto humano – e universal – fica em evidência, evitando que o foco político torne a comédia excessivamente local. Impossível não compreender as motivações amorosas do solitário Grigore, cuja mulher o ignora completamente em casa. Tanto quanto a angústia do prefeito de uma aldeia (Teodor Corban, da comédia A Leste de Bucareste) quando tem de dar conta dos preparativos para receber com toda a pompa e muita comida a visita de dirigentes do partido, retratada em A lenda da comitiva oficial – o segmento que tem um dos finais mais engraçados de todo o filme.
 
O tom anárquico de farsa está presente em outro hilariante episódio, A lenda do policial ganancioso, relatando a epopeia de um policial (Ion Sapdaru, também de A Leste de Bucareste) quando o cunhado lhe traz vivo o porco que encomendara para as festas de fim de ano.
 
O rigor doutrinário é ridicularizado em A lenda do ativista zeloso, que confronta um ultradiligente camarada urbano (Calin Chirila), decidido a erradicar a qualquer preço o analfabetismo da rural Adancata, com o teimoso pragmatismo de um velho pastor (Romeu Tudor).
 
Nenhum dos episódios é mais contundente para expor o ridículo da manipulação da informação dos regimes autoritários do que A lenda do fotógrafo oficial. O enredo acompanha o rocambolesco esforço imposto pelo partido a uma dupla de fotógrafos (Avram Birau e Paul Dunca) para ‘colocar’ um chapeu na cabeça de Ceausescu numa foto. O motivo é evitar que o dirigente pareça tão mais baixo e, subliminarmente, subserviente, diante do presidente francês, Valéry Giscard D’Estaing, que então visitava o país.
 
Ao final, fica a impressão de que estas ‘lendas’ devem todas ter sido baseadas em fatos bem reais. E também que não escapa aos diretores uma ironia também em relação ao presente da Romênia – será que as coisas mudaram tanto assim após a queda de Ceausescu? Será que a nova propaganda, que vendeu a ideia de que o mero fim do regime anterior resolveria magicamente todos os males também já não terá mostrado seus limites ?  

Neusa Barbosa


Trailer


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