Uma Vida em Segredo

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Crítica Cineweb

20/02/2003

A ausência da talentosa diretora paulista Suzana Amaral das telas durou nada menos de 17 anos. Um hiato difícil de compreender fora do contexto de incertezas que ainda cercam a produção cinematográfica no Brasil, ainda mais tendo em vista o impacto de sua estréia em 85, com A Hora da Estrela - que, aliás, permanece até hoje como o filme mais premiado da história do Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, acumulando 12 troféus, incluindo os de melhor filme, direção, ator (José Dumont) e atriz (Marcélia Cartaxo, vencedora também de um Urso de Prata de interpretação no Festival de Berlim daquele ano).

Mais uma vez, Suzana volta à literatura como fonte de inspiração, uma de suas marcas registradas. Em A Hora da Estrela, ela recorreu a Clarice Lispector e saiu-se magnificamente bem, traduzindo num discurso cinematográfico fluente o universo de uma linguagem literária sofisticada e cheia de simbolismos. Uma tarefa em que muitos cineastas não se saem bem, aliás, por sucumbirem inteiramente ao poder encantatório da literatura, como foi o caso das duas adaptações cinematográficas das obras do escritor Raduan Nassar, Um Copo de Cólera, de Aluizio Abranches, e Lavoura Arcaica, de Luiz Fernando Carvalho.

Em Uma Vida em Segredo, Suzana adaptou um romance do goiano Autran Dourado. Fora essa origem literária, as protagonistas dos dois filmes da cineasta também apresentam outros parentescos, o que sugere uma disposição de tecer uma visão particular da alma feminina. Neste filme, conta-se a trajetória de Biela (Sabrina Greve), moça interiorana e primitiva que fica órfã e herda muitas terras. Sem traquejo cultural nem social para administrar o próprio patrimônio, vai viver na cidade, na casa de um casal de primos (Cacá Amaral e Eliane Giardini). Entra em contato com um mundo completamente diverso, regido por mecanismos que a todo momento a desafiam, mas luta para permanecer fiel à sua própria maneira de ver as coisas.

É uma tragédia em dois atos. No primeiro, não faltam momentos de humor, escudados no visível desajeitamento de Biela para entrar em figurinos que não poderiam ser piores para sua figura longilínea ao extremo. Mais desencontrados ainda são os esforços da matuta para encaixar-se na expectativa social dos parentes, aonde não falta a aproximação com um noivo em potencial (Eric Nowinski).

Nesse embate entre criador e criatura que lembra o tema de Pigmalião, de Bernard Shaw, pode-se enxergar também o paradigma de um sertão (representado por Biela) de quem nunca se procura entender os motivos e onde só se enxerga uma selvageria que deve ser civilizada a qualquer preço, por conveniência ou pela força. A novidade está na maneira obstinada com que Biela luta pelo direito de dar a última palavra, por mais radicais que sejam suas escolhas.

A partir do desencontro amoroso, Biela toma rumo oposto ao que essa sociedade, no fundo tão tacanha quanto ela, espera da moça. É uma rebeldia silenciosa, mas convicta, que ergue em torno da personagem um muro de exclusão do contato humano. O único ser que penetra essa barreira de autodefesa afetiva é um cachorro vira-lata adotado por Biela e com o qual ela demonstra total comunhão. Não por acaso, um ser mais próximo da natureza, tanto quanto Biela.

Nessa segunda parte, a diretora coloca em cena mais explicitamente seu conceito de cinema, descarnando continuamente até o limite as emoções de sua protagonista. Suzana Amaral não se cansa de dizer que, em cinema, menos é mais. Mesmo concordando, há um momento em que esse minimalismo enseja o distanciamento da platéia. Talvez Suzana tenha deixado essa contenção emotiva passar um pouco além do ponto ideal. Um reparo que não desqualifica um belo trabalho, repleto de valores de produção magníficos: a interpretação empenhada da estreante em cinema Sabrina Greve (justamente premiada em festivais, como os de Brasília/2001 e do Ceará/2002), a fotografia límpida de Lauro Escorel e a direção de arte de Adrian Cooper.

Cineweb-19/7/2002

Neusa Barbosa


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