O Homem que Engarrafava Nuvens

Ficha técnica

  • Nome: O Homem que Engarrafava Nuvens
  • Nome Original: O Homem que Engarrafava Nuvens
  • Cor filmagem: Colorida
  • Origem: Brasil
  • Ano de produção: 2009
  • Gênero: Documentário
  • Duração: 86 min
  • Classificação: Livre
  • Direção: Lírio Ferreira
  • Elenco:

Avaliação do leitor

PéssimoRuimRegularBomÓtimo 4 votos

Vote aqui


Locais de filmagem


Sinopse

Documentário investiga a figura do compositor Humberto Teixeira (1915-1979), autor de mais de 400 músicas, inclusive a famosa "Asa Branca", em parceria com Luiz Gonzaga. O filme comprova o dinamismo do baião, sua sobrevivência e penetração no exterior. Chico Buarque, Gal Costa, Sivuca, Otto, Lenine, David Byrne e outros aparecem no filme.


Extras

Baião de Dois; conversa entre Denise Dummond, única filha do compositor, e sua mãe, Margarida Jatobá; Show do Teatro Rival.


Nota Cineweb

PéssimoRuimRegularBomÓtimo


Crítica Cineweb

11/01/2010

Chamado de doutor do baião pelo parceiro Luiz Gonzaga, à sombra de quem se escondeu e foi escondido, o compositor Humberto Teixeira (1915-1979) é reapresentado ao público no documentário O Homem que Engarrafava Nuvens, de Lírio Ferreira. Um título que, como alguém já disse, lembra literatura de cordel e cai muito bem na cinebiografia de um artista cearense que dominava a poesia do baião.
 
Autor de mais de 400 músicas, inclusive a internacionalmente conhecida Asa Branca, um verdadeiro mapa da identidade nordestina, Teixeira renasce neste filme, que tem a ambição não só de resgatar sua memória artística e pessoal – componente que entra por conta de a produtora ser sua única filha, a atriz Denise Dummont.
 
Outra benvinda intenção deste documentário sofisticado é delinear o que Gilberto Gil define muito bem de “dinastias musicais” do Brasil, a saber, o samba e o baião, sendo este último aqui o objeto de investigação e de culto.
 
Nesse sentido, foi fundamental para o êxito da proposta contar com um diretor com a sensibilidade apurada de Lírio Ferreira, tão exímio na ficção (Baile Perfumado) quanto no documentário (Cartola – Música para os Olhos). Longe de esgotar sua munição num mero registro da vida e da obra de Teixeira – que foi advogado, deputado e autor de uma lei sobre direitos autorais numa época em que o assunto era terra inexplorada no Brasil -, Lírio viaja pelo Brasil profundo do Nordeste.
 
Nessa viagem, desdobra as ramificações do baião, matriz de vários gêneros, sua mescla em festas tradicionais, como o reisado, sua ligação visceral com a sanfona, sua permanência na obra ou repertório de artistas atuais, inclusive no exterior – David Byrne sendo apenas um exemplo e não o solitário.
 
Lírio costura suas informações, entrevistas, relatos, números musicais, imagens, de maneira tão orgânica que nenhuma delas soa como digressão ou perfumaria. Assim, quando se menciona a vaidade do vaqueiro do sertão com sua indumentária de couro, o dado entra como um detalhe, entre muitos, que determina o caráter e o imaginário do sertão (neste caso, não só do Nordeste) e que é fundamental para a compreensão do contexto em que nasce e frutifica o baião.
 
Frutos transplantados para o Rio de Janeiro, o baião e Humberto Teixeira estavam destinados a correr o mundo. Seu sucesso, contando com a voz e a figura pop de Luiz Gonzaga, vestido como os vaqueiros do sertão, era tanto que incomodou os dirigentes de gravadoras internacionais nos anos 1950. Pelo menos uma das composições da dupla Teixeira-Gonzaga, Juazeiro, foi plagiada, numa gravação da norte-americana Peggy Lee.
 
A persistência do baião no Brasil torna-se evidente tanto pela visita aos cantadores de feira do interior nordestino como a intérpretes mais famosos, caso de Lirinha e o Cordel do Fogo Encantado, Otto e Lenine. Canções como Kalu (cantada por Chico Buarque de Holanda) e Adeus Maria Fulô (uma emocionante interpretação de Gal Costa, acompanhada pelo coautor da música, Sivuca, que morreu pouco depois) dão conta de como essas e outras obras de Teixeira são imortais.
 
Se uma das melhores definições do baião surge na boca do cantor popular Azulão - “é o hino do Brasil, o hino do curral” -, não é menos verdade que o ritmo continua a desafiar fronteiras. É quase exótico assistir a uma interpretação de Paraíba em japonês por Miho Hatori em Nova York, no mesmo cenário em que faz sucesso o grupo Forró in the Dark, apresentando música brasileira para uma plateia eminentemente norte-americana.
 
Tudo isso desafia o preconceito contra o baião, que ainda resiste em alguns meios. A própria filha de Teixeira confessa que, na juventude, achava o gênero “cafona, brega”. Uma reação nada incomum ainda hoje. Superar isto nem é, no entanto, a maior tarefa deste filme para ela, que encerra uma reconciliação com o pai, com quem teve um relacionamento difícil. Um dos momentos mais bonitos é uma conversa de Denise com a mãe, Margarida Jatobá (que morreu em 2007), na qual esclarece pontos obscuros e doídos de sua separação de Teixeira – que não abriu mão da guarda da filha, tentou impedi-la de ser atriz e, quando não pode, proibiu-a de usar seu sobrenome.
 
Um ponto alto está na seleção das imagens de arquivo, todas restauradas – detalhe que acrescentou custo e tempo de produção ao filme mas contribui decisivamente para a maior solidez de seu conteúdo. Estão ali desde a famosa cena em que Silvana Mangano interpreta O Baião de Ana no filme Arroz Amargo (1949) a imagens de Fortaleza nos anos 20 que contextualizam a vida de Teixeira. Um tipo de contexto que Lírio Ferreira usou muito bem já em seu filme anterior, Cartola... Nenhuma surpresa: Lírio é mesmo um dos melhores diretores brasileiros atuais. Por isso, realizou uma obra que transcende fronteiras de gênero, exibe grande criatividade (inclusive visual, resultado da parceria com o diretor de fotografia Walter Carvalho) e retrata e discute o Brasil. Além de ser agradabilíssima.
 
Em tempo: o título poético refere-se a uma expressão usada pelo próprio Teixeira, que dizia que “engarrafava nuvens e brumas” quando descansava, em seu sítio em Mangaratiba (RJ).

Neusa Barbosa


Trailer


Comente
Comentários:
  • 22/04/2010 - 23h11 - Por Demas Neusa, seu comentário é acertadíssimo e muito bem-vindo. Mas há uma incorreção: "Mangaratiba" é cantada, no filme, pelo Cordel do Fogo Encantado; a Miho Hatori canta "Paraíba".
  • 07/11/2010 - 19h41 - Por Neusa Barbosa Oi Demas - demorei pra responder, mas sempre é tempo de agradecer sua gentil correção, devidamente registrada no texto.
    abs
    Neusa
Deixe seu comentário:

Imagem de segurança