Falcão Negro em Perigo

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Crítica Cineweb

19/02/2003

Os melhores filmes de guerra, em geral, são aqueles que dissecam as derrotas - com a desonrosa exceção recente de um Pearl Harbor, que preferiu patinar na baboseira da autocomiseração ultrapatriótica americana, na ressaca dos atentados de 11 de setembro de 2001, ao invés de mergulhar fundo na análise do desastre de 7 de dezembro de 1941. O veterano cineasta inglês Ridley Scott sabe disso e embora seu filme sem sombra de dúvida seja claramente pró-americano, fornece imagens bastante fortes das baixas do lado oposto para não deixar dúvidas de que a guerra é um jogo menos heróico do que alguns ainda conseguem acreditar.

O foco do filme é uma operação dentro da desastrada intervenção americana na Somália em 1993. O general Garrison (Sam Shepard) ordena que um grupo de soldados de elite cerque por terra e ar, em plena luz do dia, um prédio onde supostamente estaria reunido o QG de Mohamed Farrah Aidid, o senhor da guerra caçado pelos EUA. A investida, porém, resulta num fiasco, em que os americanos ficam presos numa verdadeira armadilha, que resulta em 19 mortos e 70 feridos.

Se há inegavelmente um menor maniqueísmo na condução da história, isto não significa que o filme passe longe dos clichês. Na primeira metade, delineia-se o retrato dos soldados na base americana, estabelecendo-se a rivalidade entre os batalhões Delta e Rangers e suas respectivas camaradagens, como se se tratasse de turmas de colegiais. A batalha vai ser o reality show destes homens, em sua maioria jovens americanos médios e interioranos que aprendem na marra a superar uma visão infantil do mundo, com lições práticas de geografia em sangrentos campos de batalha.

Já no pleno calor do combate, os diálogos afundam no politicamente incorreto. Os somalis são sempre chamados de "biafras" (tradução brasileira para "skinnies", ou seja, "magérrimos") pelos soldados americanos. Apesar desse viés - até compreensível no calor de lutas corpo-a-corpo verdadeiramente infernais -, as imagens privilegiam os feridos norte-americanos mas não ignoram os famintos e desesperados civis africanos.

Talvez por esse relativo distanciamento crítico diante do intervencionismo americano, o filme de Ridley Scott tenha recebido críticas desfavoráveis de algumas das mais poderosas publicações dos EUA, caso do New York Times e da Variety. O público local, porém, prestigiou a fita, que ultrapassou os US$ 100 milhões, uma indiscutível marca de sucesso nas bilheterias. Sinal de que o patriotismo com sotaque britânico do diretor satisfez aos ânimos ainda sensíveis de boa parte dos americanos depois da queda do World Trade Center.

Para os brasileiros, mais distantes do assunto central do filme, talvez pareça excessiva a duração dos enfrentamentos em terra. Algumas seqüências, impressionantemente realistas, são mesmo desaconselháveis a espectadores mais delicados. Finalmente, o fato de o enredo distribuir sua ênfase entre diversos personagens pode diluir a identificação da platéia. Esse recurso, no entanto, funciona muito bem dentro da aparente disposição do diretor Scott, de comprovar que a guerra é uma faca cega e letal que não escolhe seus alvos, alcança tudo e todos no seu caminho sem razão nem justiça. Mesmo que, apesar da belas seqüências com helicópteros, não se esteja aqui diante de um novo Apocalypse Now.

Cineweb-8/3/2002

Neusa Barbosa


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