Abraços partidos

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País


Sinopse

Lena é secretária de Ernesto Martel, rico empresário. Necessitando da ajuda financeira dele para atender a problemas de saúde dos pais, ela torna-se sua amante. Dois anos depois, ela conhece Mateo Blanco, diretor de cinema que realiza seu sonho de tornar-se atriz e por quem se apaixona - desencadeando o ciúme de Ernesto.


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Crítica Cineweb

04/12/2009

Em Abraços Partidos, seu 17º filme, Pedro Almodóvar enfileira suas influências, paixões e referências. Estão lá o melodrama, a paixão como inevitabilidade, os cineastas do coração – com menções expressas a Fellini, Visconti, Fritz Lang, Nicholas Ray e Jules Dassin, sem contar um Hitchcock implícito nas tintas rubras e nas sombras do noir costurado na trama.

Como nas histórias de Jorge Luis Borges, há um constante jogo de duplos, a partir do protagonista. No presente, o personagem é roteirista e só usa o nome de Harry Caine (Lluís Homar). Ele é cego e vive num mundo de sombras, mergulhado em suas lembranças de um passado, em que ele se chamava Mateo Blanco e era diretor de cinema.

Nas fotos de uma gaveta trancada a chave (o que poderia ser mais psicanalítico e, portanto, almodovariano?), misturam-se os pedacinhos de fotos rasgadas, cuidadosamente embaralhadas como um quebracabeças, e também algumas que resistem inteiras da musa de Blanco, Lena (Penélope Cruz). A mulher que um dia foi a atriz de um filme roubado ao controle do diretor, tanto quanto a sua estrela – que, num ponto da história, também recorre à duplicidade, sob o nome de Séverine, a personagem de Catherine Deneuve em Bela da Tarde, outro aceno reverencial do diretor, este ao mestre Buñuel.

Exercitando a maestria acumulada, embora sem exibicionismo, Almodóvar vai tirando da gaveta os cacos da história passada, alternando-a ao presente, em que Harry convive com sua produtora, Judit (Blanca Portillo), e o filho dela, Diego (Tamar Novas)

Não é só no rosto do jovem ator Novas, muito parecido ao Antonio Banderas dos primeiros filmes do diretor, que Almodóvar revisita seu próprio passado. Ele o faz também com uma ponta de ironia ao misturar, no filme dentro do filme de Mateo Blanco, chamado Garotas e Malas, seu próprio Mulheres à Beira de um Ataque de Nervos. Neste ponto, a composição contida das cores do cotidiano do roteirista cego (cujo estado, em mais de um momento, se torna uma metáfora da própria condição do artista quando se arrisca na criação), salta na tela o colorido desenfreado daquela comédia de 1987, que foi o primeiro grande sucesso internacional de Almodóvar e pavimentou a quase unanimidade que cerca seu nome ao redor do mundo hoje. Exceto, talvez, na Espanha natal, que costuma torcer o nariz para suas criações com mais frequência do que outros países – o que aconteceu inclusive com este Abraços Partidos, que competiu em Cannes mas ainda desta vez não trouxe a Palma de Ouro que falta ao seu diretor, apesar de uma corrente de aprovação entre boa parte dos críticos franceses.

Aos fãs ardorosos do cinema mais escancaradamente emocional de Almodóvar, caso de Tudo sobre Minha Mãe e Fale com Ela, talvez este filme pareça mais frio, de uma construção estética mais rígida, por isso, aparentemente mais fria. São modos de ver, mas esta é uma impressão enganosa. A diferença, aqui, está em como Almodóvar costura a emoção no tecido mesmo das situações e, por isso, é talvez mais implícita e sutil, mas não deixa de vibrar numa nota bem alta. Os amores desencontrados de Harry/Mateo, Lena, Judit, o empresário Ernesto Martel (José Luis Gómez), além das atormentadas relações entre os pais e os filhos da trama, nunca encontram sossego. Todos estes sentimentos formam um turbilhão sempre posto a arder, mas que, contraditoriamente, pede uma disposição mais serena para acompanhá-lo. Almodóvar fez 60 anos e isto se nota em seu trabalho. É um diretor maduro que reavalia sua trajetória, agradece a seus mestres e rearruma os mitos de seu altar. Mas continua fiel a si mesmo.

Neusa Barbosa


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