A Teta Assustada

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País


Sinopse

Fausta é uma jovem índia, filha de uma mulher que foi estuprada anos atrás por terroristas, além de ter seu marido morto. A mocinha vive em casa, com medo de tudo, até o dia que a mãe morre. Forçada a trabalhar para viver, ela vai descobrir um mundo dividido por tensões sociais.


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Crítica Cineweb

20/08/2009

A Teta Assustada, o desconcertante título deste filme peruano, vencedor do Urso de Ouro em Berlim 2009, pode dar a impressão de que se trata de alguma comédia de costumes ou uma pornochanchada fora de época. Nada mais falso. É apenas a tradução literal do nome original do drama escrito e dirigido por Claudia Llosa (de Madeinusa), que vai fundo no retrato de um país dividido entre culturas distintas, que convivem mas nunca se equivalem.

A protagonista, como em Madeinusa (2006), é Magaly Solier, cujo rosto aparentemente indecifrável carrega toda a história da exploração dos povos indígenas nas Américas - e não só durante a colonização. Ela interpreta Fausta, vítima de um medo ancestral, o da violação, que segundo as superstições é passado pelo leite materno. Sua mãe fora vítima de estupro, durante o reinado de terror do Sendero Luminoso na zona rural, nos anos 80. Mesmo que agora o grupo terrorista tenha sido desmontado, Fausta guarda na carne o trauma. Toma, assim, uma decisão drástica: implanta uma batata na vagina para defender-se de eventuais violadores.

O absurdo desta situação poderia levar o filme num caminho bizarro ou inverossímil. Ao invés disso, torna-se uma metáfora que, mesmo desafiando os limites da lógica, nunca perde de vista a humanidade da índia.

Fausta tem medo de tudo, nunca sai de casa sozinha. Com a morte da mãe, este pequeno casulo onde vive começa a desfiar-se. Até porque deseja dar à mãe uma sepultura definitiva na terra natal, precisa trabalhar. Torna-se empregada na casa de uma rica compositora e pianista, Aída (Susi Sánchez). Como ela, uma mulher com bloqueio de comunicação. Fausta quase não fala, a pianista não consegue compor.

O enredo expõe o paralelismo da vida dos índios pobres e dos brancos ricos, que habitam mundos distintos, cultural, econômica e fisicamente. O pesado portão da mansão da pianista nada mais é do que outra metáfora eloquente desta separação e desconfiança mútua.

A atividade dos tios de Fausta, conduzindo um modesto bufê de casamentos, é outro paradigma de como a realidade dos ricos é incorporada no andar de baixo. Nestas festas, imitações do mundo rico transformam-se em caricaturas de condições de vida melhores, de luxos inatingíveis tornados acessíveis pelo clone malfeito ao alcance de todos.

Não é um aspecto menor que as protagonistas dos dois universos sejam mulheres. Seu ponto de vista distinto sobre as coisas coloca-as em choque com o mundo ainda muito machista, onde uma indiazinha como Fausta é sempre uma caça e uma mulher independente como Aída é olhada com suspeita. Nem por isso o filme se torna maniqueísta.

A escolha de uma câmera bastante estática, distanciada e de movimentos lentos, permite a contemplação dos dilemas de Fausta, que não se dá a conhecer facilmente. Mas é possível assistir a uma evolução na personagem, que extrai da mesma cultura primitiva seus medos e superstições e também as chaves de uma sabedoria que permite sua superação. Há esperança para Fausta, ainda que no jogo com os brancos permaneça a histórica tendência à expropriação.

No Festival de Gramado 2009, A Teta Assustada venceu três kikitos: melhor longa latino, melhor direção e melhor atriz.

Neusa Barbosa


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