Sinédoque, Nova York

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Sinopse

Um diretor de teatro enfrenta sérios problemas quando tenta encenar sua obra-prima. Nada parece real. Estaria a vida copiando a arte? Ou a arte roubando elementos da vida? O certo é que ele e as pessoas que o cercam parecem viver numa outra realidade.


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Crítica Cineweb

16/04/2009

Alguns artistas sonham em capturar o mundo real em sua obra. Outros pensam em inventar seu próprio mundo. Sinédoque, Nova York ambiciona as duas coisas – e consegue cumprir sua promessa na maior parte do tempo. O premiado roteirista Charlie Kaufman (Brilho Eterno de uma Mente Sem Lembranças, 2004) faz aqui sua estreia na direção, escrevendo também o roteiro e condensando na história todas as suas obsessões com metalinguagem e pós-modernidade.

Sinédoque, Nova York é muito mais do que a figura de linguagem presente no título – na qual, entre outras coisas, a parte representa o todo. É um filme que pode ser visto como uma releitura do clássico felliniano 8 ½ - embora Kaufman tenha garantido, numa entrevista após a première mundial do filme, no Festival de Cannes, em 2008, que desconhece o longa italiano. No filme de Federico Fellini, de 1963, o protagonista (Marcello Mastroianni) era um cineasta em crise criativa. Na história de Kaufman, trata-se de um diretor de teatro (Philip Seymour Hoffman, de Capote), tentando criar sua obra-prima, a peça que deixará seu nome na história.

A obra toda de Kaufman – que também inclui roteiros como Quero Ser John Malkovich (1999) e Adaptação (2002), ambos dirigidos por Spike Jonze, que assina a produção aqui – busca uma relação entre o que há dentro da cabeça dos personagens e a forma como esses pensamentos, desejos, frustrações se materializam.

Dessa vez, o foco cai sobre Caden Cotard (Philip Seymour Hoffman), o dramaturgo neurótico, casado com uma mulher tão atormentada quanto ele (Catherine Keener, de Na Natureza Selvagem), e cuja filha pequena é a soma exata das neuroses dos pais. As pessoas que cercam o protagonista também parecem sofrer de males emocionais, como a psiquiatra egoísta (Hope Davis, de Confidencial), que só pensa em transformar seu novo livro em bestseller.

Nesse momento, Caden dirige A Morte do Caixeiro Viajante – com o diferencial de colocar atores jovens no papel dos idosos que protagonizam a peça de Arthur Miller. Anos mais tarde, quando ganha um prêmio para a montagem de uma peça, o diretor decide escrever um texto sobre a vida – mas não uma representação da vida, mas, sim a vida própria, acontecendo em cima do palco.

Para a ambiciosa empreitada, conta com a ajuda de sua nova amada, Hazel (Samantha Morton, de Control), e da atriz Claire (Michelle Williams, de Não Estou Lá), entre outros. Mas Caden ensaia a peça por anos a fio, porque, como na vida, não consegue chegar a uma conclusão. A cada dia, acrescenta-se uma nova camada, uma novidade, um novo personagem – e estes, assim como o diretor, envelhecem no palco, situado num grande galpão, um verdadeiro simulacro de Nova York, e, por extensão, da realidade.

Para interpretar a si mesmo na sua peça, Caden escolhe um ator (Tom Noonan) completamente diferente de si – alto e magro. Para o papel de Hazel, no entanto, coloca uma atriz (Emily Watson, de O Dragão Vermelho) muito parecida com a verdadeira. As vidas dessas quatro pessoas se cruzam e se confundem à medida em que o dramaturgo se torna o Deus de seu próprio mundo. Tudo isso até a chegada de uma nova personagem, vivida por Dianne Wiest (de Eu, Meu Irmão e Nossa Namorada).

Sinédoque, Nova York é uma experiência cinematográfica estranha – no bom ou no mau sentido, dependendo da disposição e do interesse do espectador. É inegável, no entanto, que se trata de uma tentativa de fazer um cinema inteligente e instigante, longe das banalidades explosivas e escapistas nas quais Hollywood se acomodou.

Kaufman pode ainda não ter o domínio da técnica de outros cineastas que dirigiram roteiros seus – como Spike Jonze e Michel Gondry. Mesmo assim, o roteirista se mantém um provocador costumaz, rompendo limites entre a arte e a vida, o real e o imaginário.

Alysson Oliveira


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