Adaptação

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Crítica Cineweb

17/02/2003

Qual mortal nunca quis estar na pele de outra pessoa? O diretor Spike Jonze e o roteirista Charlie Kaufman deixaram generosamente o espectador olhar, por alguns minutos, através das retinas do ator John Malkovich, na comédia surreal Quero Ser John Malkovich (1999). Mas a dupla não deu essa chance ao protagonista de Adaptação e o fez encarar de frente as angústias de um homem para o qual qualquer contato social é extremamente problemático.

O roteiro é realmente original e mistura com destreza a tentativa de um roteirista em adaptar para o cinema o livro O Ladrão de Orquídeas à vida da autora e do personagem que inspirou a obra. Em princípio, o filme destrói os mandamentos que compõem a cartilha dos roteiristas hollywoodianos. Mas, ironicamente, acaba seguindo a mesma linha dos genuínos filmes água-com-açúcar. A tática, que beira o cinismo, nega o discurso preestabelecido que impede seu personagem de viver algo, de antemão já condenado. O protagonista sabe exatamente o que não quer, mas não faz a menor idéia do que procura. No filme, a verdade é que bem lá no fundo todos buscam a mesma coisa que Hollywood: um final feliz, alcançado depois de lições de vida importantes.

O filme também conta com ótimas performances de Nicolas Cage, Meryl Streep - em um raro papel em comédia -, e especialmente Chris Cooper, numa atuação irretocável como o comerciante ilegal de orquídeas. A Academia indicou os três ao Oscar nas categorias de ator e atores coadjuvantes.

Charlie Kaufman (Cage), assim como seu criador, também é um roteirista conceituado, mas que passa por uma crise criativa, agravada pela insegurança, pelo complexo de inferioridade, pela dificuldade de relacionamento e conseqüente frustração sexual. Acostumado a escrever roteiros originais, Kaufman não sabe como mandar para as telas o livro da jornalista Susan Orlean (Streep) sobre John Laroche (Cooper), um ladrão de orquídeas raras que as clona e vende a colecionadores.

Os problemas de Charlie inexistem em seu irmão gêmeo, o extrovertido Donald, cuja empreitada é se tornar roteirista seguindo as dicas de produção industrial do professor Robert McKee (Brian Cox). Todos os clichês que Charlie abomina estão no filme de Donald, sobre um serial killer com múltiplas personalidades. Mas terá de recorrer à ajuda do irmão para terminar a encomenda.

Como Woody Allen, que "documentou" a existência do fictício guitarrista de jazz Emmet Ray, em Poucas e Boas (1999), Kaufman tenta nos fazer acreditar na veracidade dos fatos narrados pelo personagem Kaufman, em Adaptação. As coincidências não são poucas. Além do nome e da profissão, a certa altura o protagonista acompanha as filmagens de seu Quero Ser John Malkovich. O Ladrão de Orquídeas foi realmente publicado por Susan Orlean, o professor de roteiro Robert McKee realmente dá aulas e parece não ter se importado com a sátira, pois colocou uma página do filme em seu site pessoal.

As pistas enganam mesmo. A prova de que a obra é realmente ficcional não está nas características físicas de Charlie Kaufman. Ele não é gordo, nem careca e tampouco sua às bicas como o personagem de Cage. A resposta é Donald que, ao lado de Charlie, assina os créditos do filme e concorre ao Oscar de melhor roteiro adaptado. O problema é que Donald não existe na vida real, o que nos leva a questionar também sua existência no filme. O roteiro capenga de Donald ajuda a matar a charada: múltipla personalidade. Os gêmeos, na verdade, são um só, e expressam a duplicidade humana entre o que se quer ser e o que se é.

Cineweb-21/2/2003

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