Celebridades

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Crítica Cineweb

13/01/2003

Ser famoso é bom e todo mundo gosta. Só que, às vezes, tem seu preço. Que o diga Woody Allen, lembrando de sua tempestuosa separação da mulher, Mia Farrow, três anos atrás, que arrastou o nome do diretor mais celebrado de Nova York pela lama do mais barato tablóide de segunda linha. O turbilhão passou e Woody, como é seu hábito, exorcizou tudo no trabalho. Para azar do público brasileiro, porém, seus filmes têm demorado cada vez mais a chegar às telas por aqui. Desde 98, já são três que os brasileiros ainda não viram, sem contar o tradicional filme anual, que ele já começou a preparar.

Desses três filmes já prontos, nos quais se incluem Poucas e Boas (Sweet and Lowdown, que teve duas indicações no Oscar/2000) e Small Time Crooks, Celebridades é o primeiro a chegar ao Brasil e provavelmente o que mais sofrerá pela distância de seu lançamento original, em 98 nos EUA. Praticamente dois anos após ter sido feito, a história perde de vista o contexto de sua criação, o inferno pessoal de Allen depois do divórcio. Hoje, parece um exercício bem mais relaxado sobre o acaso que rege a busca da fama. Só a fotografia em preto-e-branco do sueco Sven Nykvist, parceiro habitual de Ingmar Bergman, insinua uma outra leitura para sua aparente frivolidade.

Depois da superexposição de sua intimidade na imprensa mundial, a primeira proteção para Woody ao fazer este filme foi colocar-se na sombra, escancarando na tela um alterego vivido por Kenneth Branagh. Na pele do escritor e jornalista Lee Simon, o ator irlandês exagera quase sempre na mímica da fala gaguejante de Woody e no seu surpreendente sucesso com as mais belas mulheres, mesmo sem ser um atleta de academia - outro mito de nossa época, devidamente ironizado pelo diretor e roteirista.

Lee quer a fama a qualquer preço. Depois de dois livros desancados pela crítica, joga sua última cartada num roteiro para o cinema. Percorrendo a via-crúcis de todo anônimo, busca atrair o interesse de uma atriz de Hollywood, Nicole Oliver (Melanie Griffith) - pouco importa que seu script descreva a história de um assalto e tenha sido escrito para um protagonista homem, que em nada confere com as medidas esculturais da esplêndida loura burra.

Nova investida visa um roqueiro marginal, Brandon Darrow, vivido por um Leonardo DiCaprio contratado por Allen ainda antes do estouro de Titanic - o que dá um tempero extra ao seu papel de bad boy estragado pela fama, capaz de destruir uma luxuosa suíte de hotel, agredir a namorada, consumir vasta quantidade de cocaína e liderar um ménage à trois. Cenas que, certamente, contribuem para a elevação da censura do filme e para a demolição da imagem romântica de DiCaprio ainda mais do que o seu papel de aventureiro neo-hippie de A Praia, de Danny Boyle, lançado por aqui no início de 2000.

Nesta festa que é atingir a celebridade, não é convidado quem quer e sim quem a sorte elege - e este é o caso da ex-mulher de Lee, a professora Robin (Judy Davis). Ela, que nunca procurou a fama, conquista-a meio sem querer, no movimentado consultório de um dos mais famosos cirurgiões plásticos de Nova York - chamado ironicamente de "Michelangelo de Manhattan". Robin, que procurava uma nova face, encontra um novo namorado, o apresentador de TV Tony Gardella (Joe Mantegna), que a lança numa carreira de apresentadora de um quadro em que o foco, justamente, está nos freqüentadores das manchetes e colunas sociais.

Como já se vira em Desconstruindo Harry, a voz da razão vem das personagens menos intelectuais. Aqui, também, uma prostituta (Bebe Neuwirth) é uma delas. É ela quem fornece à reprimida e católica Robin, a pedidos, uma completíssima lição de sexo oral usando uma banana - um dos momentos mais divertidos do filme. Em outro ponto da história, será uma mística (Aida Turturro) a mensageira de senso prático de que a desorientada Robin precisa.

Se Celebridades não chega ao requinte dos diálogos ácidos de Desconstruindo Harry, ou dos números musicais de Todos Dizem Eu Te Amo, não há como negar-lhe uma sadia ironia diante dos ricos e famosos ou dos que tentam chegar lá. Com tantos falsos brilhos, o melhor mesmo foi deixar de lado as cores - que, para ser coerente, Allen teria de tomar emprestadas de um dos estampadões radicais de Pedro Almodóvar.

Neusa Barbosa


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